Domingo, 27 de setembro de 2026

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Voltar Brasil está entre os países com menor participação de mulheres no Parlamento

Ao longo das últimas décadas, o Brasil tem ampliado medidas de incentivo à participação feminina nas eleições. Ainda assim, o Congresso Nacional brasileiro ocupa a 138ª posição no ranking de participação feminina nos parlamentos nacionais da IPU (União Interparlamentar). Na Câmara dos Deputados, mulheres ocupam 88 das 513 cadeiras da Casa. No Senado, a bancada feminina é composta por 15 parlamentares, de um total de 81 vagas.

No recorte usado pela IPU para o ranking, a participação feminina no Brasil está abaixo da média mundial, de 27,3%, e representa menos da metade da média das Américas, de 35,7%. Na América do Sul, a média é de 31,5%. Bolívia e México, por exemplo, já ultrapassaram 50% de participação feminina nesse recorte.

No Brasil, a diferença entre o eleitorado e o Parlamento também é grande: mulheres representam 52,8% das pessoas aptas a votar nas eleições de 2026, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mas ocupam menos de uma em cada cinco cadeiras da Câmara.

a professora de ciência política da UFMG Marlise Matos afirmou que não há uma causa única para a posição brasileira no ranking. “A eleição de um maior número de mulheres é uma verdadeira corrida de obstáculos”, diz. Segundo ela, esses obstáculos começam antes mesmo de uma possível candidatura, na forma como homens e mulheres são incentivados a ocupar espaços diferentes na sociedade.

“A nossa socialização política ainda é muito arraigadamente patriarcal, racista”, afirma. Marlise cita a associação histórica dos homens ao trabalho e à vida pública, enquanto o cuidado da casa e da família recai sobre as mulheres. A sobrecarga, segundo ela, reduz o tempo disponível para participar da política e construir uma candidatura.

A professora Flávia Biroli, do Instituto de Ciência Política da UnB, também relaciona a sub-representação a essa divisão. “Historicamente, as mulheres foram orientadas para atividades na esfera privada ou relacionadas a ela, como se essa fosse naturalmente sua competência. Os homens, por sua vez, foram orientados para atividades na esfera pública e ocuparam posições que lhes permitiram controlar recursos de poder”, explica.

Para Biroli, os obstáculos se acumulam de maneiras diferentes conforme raça e classe. “Se olharmos, por exemplo, para pessoas pretas e pardas, veremos que as mulheres pretas e pardas têm representação menor que a dos homens pretos e pardos”, afirma.

Por que outros países elegem mais mulheres?

Para as pesquisadoras, a diferença está na forma como as candidaturas são apresentadas ao eleitor. No Brasil, o sistema de lista aberta permite que cada pessoa vote diretamente em uma candidata ou um candidato. Assim, mesmo que um partido cumpra a cota de 30% de candidaturas femininas, a proporção de mulheres eleitas pode ser menor.

“É verdade que o sistema de listas abertas dificulta a conversão do percentual de candidatas em representação parlamentar. Mas esse prejuízo poderia ser reduzido se os partidos lançassem e apoiassem candidaturas de mulheres, investissem em sua formação política entre as eleições e as tratassem como candidaturas viáveis e importantes para a democracia”, afirma Marlise Matos, professora da UFMG.

Em países que adotam listas fechadas com alternância de gênero, o eleitor vota no partido, e as cadeiras conquistadas são preenchidas segundo a ordem previamente definida na lista. Flávia Biroli, professora da UnB, citou a Argentina como exemplo: “As listas são fechadas e alternadas. Com uma sequência de homens e mulheres na lista, o voto do eleitorado necessariamente elege mulheres.”

Violência afasta mulheres da política

A violência política contra mulheres acrescenta mais um obstáculo, tanto durante a campanha quanto depois da eleição. Esta semana, o TSE lançou um novo painel para o acompanhamento de casos de violência política de gênero.

Durante o lançamento, a ministra do TSE Estela Aranha também destacou que a violência contribui para afastar mulheres da esfera política. Segundo ela, o impacto não se limita às vítimas, mas pode desestimular outras mulheres a ingressarem na política.

“As formas de intimidação e o constrangimento moral fazem a mulher dizer: ‘Por que eu vou estar aqui?’. Esse constrangimento moral atinge a família, seus filhos, e ela sai da política. Mas ele também atinge a coletividade, porque, quando as outras mulheres veem isso acontecer, elas perguntam: ‘Por que eu vou entrar na política?’”, afirmou.

Aranha chamou atenção ainda para a dificuldade de reação das vítimas e para a dimensão que os ataques podem alcançar nas plataformas digitais. “Quando é digital, isso é pior, porque, obviamente, você tem mais velocidade, mais volume, e elas não têm aonde recorrer. São ataques, às vezes, coordenados”, acrescentou.

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