Terça-feira, 28 de abril de 2026

Terça-feira, 28 de abril de 2026

Voltar Soja entra em novo ciclo e preços passam a ser guiados por fatores externos

 

O mercado global de soja entra na safra 2026/27 sob uma mudança estrutural que redefine a formação de preços. Após um ciclo longo ancorado em fundamentos clássicos de oferta e demanda, o setor passa a operar em um ambiente mais complexo, no qual variáveis externas — como geopolítica, energia e fluxos financeiros — ganham protagonismo.
A leitura da Biond Agro aponta que, embora a produção global siga elevada, o ritmo de crescimento da demanda desacelera, especialmente na China, principal compradora mundial. Esse desalinhamento progressivo reduz a previsibilidade do mercado e amplia o peso de fatores exógenos na formação de preços.

“Esse desalinhamento gradual entre oferta e demanda abre espaço para novas variáveis que passam a ganhar relevância. Entre os principais destaques do novo ciclo estão a geopolítica e a energia”, afirma Yedda Monteiro.

Do lado da oferta, o cenário permanece confortável. A produção global continua em trajetória de crescimento, com protagonismo do Brasil, que mantém expansão de área, ganhos de produtividade e avanço consistente nas exportações. Em anos recentes, o país passou a responder por mais de metade dos embarques globais, consolidando sua liderança. Os Estados Unidos seguem com produção elevada, ainda que com ajustes na área plantada em função da concorrência com o milho, enquanto a Argentina preserva relevância, apesar da volatilidade climática.
No eixo da demanda, a China segue como elemento central, mas com mudanças importantes. O país continua concentrando a maior parte das importações globais de soja, impulsionado pela cadeia de proteína animal. No entanto, o crescimento dessas compras perdeu ritmo, refletindo ajustes no consumo interno, maior eficiência na produção de ração e recomposição de estoques após ciclos de forte expansão. Esse novo padrão reduz a pressão estrutural sobre os preços e contribui para um mercado mais equilibrado — porém mais sensível a choques externos.

Esse equilíbrio ficou evidente no início de 2026. Mesmo com oferta abundante, as cotações reagiram a fatores não agrícolas: atrasos pontuais na colheita no Brasil, expectativa de retomada das compras chinesas e, principalmente, tensões geopolíticas que elevaram o petróleo e reforçaram a competitividade do biodiesel. O resultado foi a recuperação dos preços em Chicago, que saíram da faixa de US$ 10 para níveis acima de US$ 11 por bushel — movimento impulsionado mais por risco e energia do que por fundamentos de safra.
No campo climático, o cenário aponta transição de La Niña para neutralidade ao longo de 2026, com possibilidade de evolução para El Niño no segundo semestre. Esse movimento tende a redistribuir riscos entre regiões produtoras, sem indicar, até o momento, uma quebra relevante de oferta global — o que reforça a ausência de gatilhos clássicos para uma alta sustentada.

Outro vetor decisivo está na disputa por área nos Estados Unidos. Em um contexto de estoques elevados, o milho ganha competitividade e pode manter área superior à da soja, limitando a expansão da oleaginosa. Essa dinâmica atua como regulador do sistema agrícola global, influenciando preços e decisões de plantio em escala internacional.

Para especialistas, o novo ciclo exige uma mudança clara de estratégia. Em um ambiente de oferta ampla e demanda moderada, a formação de preços deixa de responder apenas aos fundamentos e passa a refletir, cada vez mais, o cenário macroeconômico global.
“A recomendação é focar na gestão de custos, aproveitar oportunidades e construir uma média consistente, priorizando execução e gestão de risco em vez de tentar prever preços”, afirma Yedda.

Esse ambiente — mais volátil, técnico e dependente de fatores externos — estará no centro dos debates da Fenasoja 2026, que começa em 30 de abril, em Santa Rosa. O evento deve reunir produtores, analistas e lideranças para discutir estratégias diante de um mercado em transformação.

Na prática, a safra 2026/27 não aponta para escassez. Aponta para algo mais desafiador. Um mercado global grande, competitivo — e cada vez mais dependente do que acontece fora da porteira. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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