Terça-feira, 05 de maio de 2026

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Voltar Santa Rosa: a semente que criou a soja do Brasil completa 60 anos

 

Há histórias que começam como necessidade e terminam como potência. A da cultivar Santa Rosa é uma delas. Lançada em 1966, durante a primeira edição da Fenasoja, em Santa Rosa, ela foi a primeira soja de relevância comercial adaptada às condições brasileiras — o momento em que o país deixou de testar possibilidades e passou a construir uma base produtiva própria.

Mas essa trajetória começa antes. Em 1914, o pastor norte-americano Albert Lehenbauer introduziu a soja no noroeste gaúcho. Em uma região onde faltavam mercado, renda e alimento, o grão não chegou como commodity, mas como sobrevivência. Era plantado para consumo e para alimentar suínos — base econômica das famílias. Sem indústria, sem logística e sem garantia de retorno, a soja cresceu como alternativa possível dentro de um cenário adverso.

Esse início moldou um sistema. A produção de suínos impulsionou a demanda por ração e, em 1941, Santa Rosa recebeu a primeira indústria processadora de soja do país. O que era subsistência começou a ganhar escala econômica — e, com ela, relevância.

Até os anos 1960, porém, o Brasil dependia de variedades estrangeiras, pouco adaptadas ao clima local. A mudança começou no Instituto Agronômico de Campinas, onde, em 1953, os pesquisadores Leonard F. Williams e Shiro Miyasaka realizaram o cruzamento que daria origem à cultivar Santa Rosa. A linhagem, testada no Rio Grande do Sul, encontrou no campo aquilo que a ciência buscava: adaptação real.

Coube ao técnico Juarez Guterres reconhecer esse potencial e conduzir os ensaios em Santa Rosa. O resultado foi uma cultivar mais alta, rústica e produtiva, capaz de responder ao ambiente brasileiro. Em 1966, seu lançamento não representou apenas uma nova variedade — marcou a transição da dependência externa para a construção de uma agricultura adaptada ao país.

A partir daí, a soja avançou. Espalhou-se pelo Sul e seguiu rumo ao Centro-Oeste, levada por produtores que enxergaram no grão uma oportunidade de expansão. A trajetória da família Daltrozo traduz esse movimento em escala humana. Décadas depois da migração, o legado permanece no campo.
“A família seguiu o legado de resiliência que levou a cultivar Santa Rosa àquela região, e de outras pessoas que abriram fronteiras agrícolas e contribuíram para que o Brasil se tornasse o maior produtor de soja do mundo”, afirma Lucas Daltrozo, produtor em Primavera do Leste (MT).

Mais do que ocupar novas áreas, a Santa Rosa estruturou a base genética da soja brasileira. Tornou-se material de referência para o melhoramento que viria na sequência. A Embrapa, criada em 1975, ampliou esse avanço, desenvolvendo cultivares adaptadas a diferentes regiões e consolidando a soja como cultura nacional.
“A Santa Rosa é uma das cultivares mais importantes para o desenvolvimento da soja como cultura nacional”, avalia a pesquisadora Mônica Zavaglia. “O fio que conecta a Santa Rosa ao que o Brasil é hoje no agronegócio é direto.”

Os números ajudam a dimensionar o impacto. Em 1960, o Brasil produzia cerca de 206 mil toneladas de soja. Na safra 2025/26, a projeção ultrapassa 179 milhões de toneladas. A produtividade quadruplicou e o complexo soja passou a representar cerca de 6% do PIB nacional.

Sessenta anos depois, a cultivar já não ocupa as lavouras modernas, mas permanece presente em todas elas. Seu legado está no código genético das variedades atuais, na estrutura produtiva e na posição estratégica que o Brasil ocupa no comércio global.

Na origem dessa transformação está Santa Rosa — o território que apostou no grão antes de qualquer outro no país.
“A Santa Rosa é o símbolo disso. Ela nasceu aqui, cresceu aqui e foi daqui que o Brasil aprendeu a cultivar o grão que hoje alimenta o mundo”, resume Marcos Servat, presidente da Fenasoja.

A soja que começou como ração nos fundos das propriedades virou o principal ativo do agronegócio brasileiro.
E, seis décadas depois, ainda carrega no nome o endereço de origem: Santa Rosa.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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