Terça-feira, 05 de maio de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 18 de abril de 2026
Poucos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que foram a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016 admitem arrependimento. Passados dez anos, o PT trata o episódio com pragmatismo na costura de palanques nos estados para as eleições de 2026, enquanto a maioria dos que votaram pela cassação evita tocar no assunto.
O jornal Folha de S.Paulo procurou 19 lideranças políticas que foram favoráveis ao impeachment – 16 delas eram congressistas que votaram a favor do processo na Câmara dos Deputados ou no Senado Federal. Doze não quiseram se manifestar sobre o tema ou não responderam e apenas duas declararam arrependimento. Uma afirmou que a justificativa para a cassação foi frágil, sem comentar a sua postura na ocasião, outras duas lamentaram, mas não disseram que agiriam de forma diferente, e mais duas disseram não se arrepender.
A lista completa inclui sete nomes que ocuparam ministérios no governo Lula, mais dois quadros hoje filiados ao PT e políticos que o partido estuda apoiar nas disputas ao Senado e aos governos dos estados.
A votação na Câmara que abriu caminho para o afastamento da então presidente completou dez anos na sexta-feira (17).
O vice-presidente e pré-candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSB), que foi também ministro do Desenvolvimento e Indústria, era governador de São Paulo pelo PSDB em 2016 e disse, por meio de sua assessoria, que o impeachment “teve como base uma justificativa frágil que pôs em risco a democracia no Brasil”.
Ele lembrou que a própria Folha noticiou, em 2015, que ele não via força na acusação das pedaladas fiscais –que serviram de base para o pedido de cassação. No entanto, não comentou declaração que fez no ano seguinte, de que “o PSDB agiu corretamente votando favoravelmente ao impeachment”, em uma entrevista ao SBT.
A deputada federal Marina Silva (Rede-SP), ex-ministra do Meio Ambiente, defendeu o impeachment e, em 2018, disse que não se arrependia do posicionamento. “Apoiei o impeachment por convicção, houve crime de responsabilidade. Não me oriento por métrica eleitoral”, disse em sabatina promovida por O Globo, Valor e Época. Ela é cotada para se lançar a uma cadeira ao Senado na chapa do petista Fernando Haddad ao governo paulista, que já tem Simone Tebet (PSB) como pré-candidata à outra vaga.
Tebet foi ministra do Planejamento e deixou o cargo para concorrer em São Paulo a pedido do próprio Lula. Em 2016, era senadora pelo PMDB (hoje MDB) e justificou o seu voto “pelas consequências nefastas a esta e às futuras gerações que pagarão esta conta”.
Para o petista José Eduardo Cardozo, que foi advogado particular de Dilma durante o processo do impeachment, é “inevitável juntar forças políticas para evitar a barbárie”, referindo-se à união de quadros de esquerda e centro, desde a eleição de 2022, para derrotar o bolsonarismo –como no caso da própria chapa Lula-Alckmin, que reuniu Marina e contou com o apoio de Tebet no segundo turno.
Apoiado pelo PT para se reeleger, o senador Carlos Fávaro (PSD-MT), ex-ministro da Agricultura, era vice-governador de Mato Grosso pelo PP e viajou a Brasília em abril de 2016 para acompanhar a votação na Câmara. “Dizer que isso é golpe é um discurso fácil e desesperado”, disse ao portal Olhar Direto na época.
André de Paula (PSD-PE), ex-ministro da Pesca, assumiu a Agricultura no lugar de Fávaro e votou pelo impeachment quando era deputado federal. Também votaram pela cassação o ex-ministro do Esporte André Fufuca (PP-MA) e o ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho (PSDB-MA).
Juscelino disse que não se manifestaria. Já Tebet, Marina, André de Paula, André Fufuca e Carlos Fávaro não retornaram às tentativas de contato feitas pela Folha por ligações, email e aplicativos de mensagem.
Um dos apoios que mais geraram mágoas aos petistas foi o de Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo e ex-ministra da Cultura no governo Dilma. Ela trocou o PT pelo PMDB em 2015 e, enquanto senadora, não só votou pelo impeachment como presenteou com flores a advogada Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido. Marta retornou ao PT em 2024, a convite de Lula, para ser candidata a vice-prefeita de São Paulo nas eleições municipais e, via assessoria, não quis comentar o seu voto há dez anos.
Outro duramente criticado pelo PT foi Cristovam Buarque, que deixou o partido em 2005 após o escândalo do mensalão e votou pela cassação enquanto senador pelo PPS (hoje Cidadania). “Votei como economista e confesso que errei como político”, disse.
Hoje pré-candidato a deputado federal pelo PSB de Alckmin, relatou ter sido “massacrado” pelos petistas mesmo apoiando Lula em 2022 e integrando a chapa do presidente no DF em 2026.
“A gente não se arrepende daquilo que, naquele momento, era o mais certo. A gente lamenta as consequências do que ocorreram. Uma coisa é se arrepender, era melhor não ter sido preciso (proceder com o impeachment)”, afirmou.
Recém-filiada ao PT e pré-candidata à reeleição, a senadora Eliziane Gama (MA) admitiu arrependimento pelo voto pró-impeachment quando era deputada pelo PPS. “É um dos poucos erros que cometi na vida política”, disse.
Cobrada pelo seu posicionamento pelos petistas – hoje colegas de partido –, atribuiu a mudança à maturidade. “São pessoas que, ao tomarem essa posição hoje, estão fazendo autocrítica da aberração jurídica (que foi o impeachment)”, avalia o o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), que foi líder do governo na Câmara em 2015 e 2016.
Quem também se arrependeu do voto foi Floriano Pesaro (PSB-SP), diretor de Gestão Corporativa na ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Deputado pelo PSDB em 2016, ele disse ter cometido “um erro histórico”.
“Hoje nós temos consciência de que, naquele momento, grande parte daqueles que votaram a favor do impeachment estava sendo manipulada”, afirmou à Folha.
O senador Humberto Costa (PT-PE) disse que houve uma conspiração contra o PT na época e que “muita gente foi nessa”. A fala foi endossada por José Eduardo Cardozo: “Tem gente que não queria se indispor com a opinião pública, que achava que não tinha como fazer de outra forma. Não têm por que não dialogar com essas pessoas agora.”
Nome defendido por Lula para o Governo de Minas Gerais, o senador Rodrigo Pacheco (PSB) também votou pelo impeachment enquanto deputado. Ele afirmou à reportagem que seguiu o PMDB e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) na decisão. “Hoje, reconheço o trauma gerado pela ruptura de um mandato presidencial, e considero que as consequências disso não foram as melhores”, declarou.
Os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Eduardo Braga (MDB-AM), Eunício Oliveira (MDB-CE) e Omar Aziz (PSD-AM) votaram pelo impeachment e, hoje, discutem chapas com o PT em seus estados. Dos quatro, apenas Aziz é pré-candidato a governador, enquanto os outros tentarão a reeleição.
Também senador, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) foi eleito presidente do Senado em 2025 com o apoio do PT. Em 2016, ao votar pelo afastamento, disse que o processo era legítimo, em contraponto ao discurso petista de que se tratava de um golpe. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
Após enviar seu primeiro comentário, você receberá um email de confirmação. Clique no link para verificar seu email - depois disso, todos os seus próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
Você só precisa verificar uma vez a cada 30 dias.