Quinta-feira, 07 de maio de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 6 de maio de 2026

A participação do economista e ex-ministro da Economia Paulo Guedes na Fenasoja 2026, em Santa Rosa, extrapolou o formato tradicional de palestra empresarial e se transformou em uma ampla leitura sobre geopolítica, reorganização econômica mundial e os impactos dessas transformações sobre o Brasil e o agronegócio.
O encontro reuniu cerca de 670 pessoas durante o “Almoço de Ideias”, promovido pela ACISAP (Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agronegócios de Santa Rosa), presidida pelo empresário Cássio Feltes. A articulação da presença de Guedes foi construída conjuntamente pela organização da feira, Prefeitura de Santa Rosa, ACISAP e pelo gabinete do deputado federal Osmar Terra.
Realizado dentro da programação dos 60 anos da Fenasoja, o evento reforçou uma mudança perceptível no posicionamento da feira. Mais do que vitrine de máquinas, tecnologia e negócios do agro, a Fenasoja passa a incorporar discussões ligadas à economia global, ambiente institucional e transformações geopolíticas — movimento alinhado à tentativa de posicionar Santa Rosa como polo de formulação estratégica ligado ao agronegócio brasileiro.
A palestra teve duração próxima de duas horas e chamou atenção já no início pela dinâmica proposta pelo ex-ministro. Em uma decisão considerada estratégica para manter a concentração integral do público, Paulo Guedes não permitiu registros fotográficos nem o uso de celulares durante a apresentação. Gravações eram toleradas, mas o objetivo era reduzir distrações e direcionar a atenção para o conteúdo exposto.
O ambiente criado destoava do padrão atual de eventos corporativos, normalmente marcados pela hiperexposição digital. Sem telas erguidas ou registros permanentes, a audiência permaneceu focada em uma apresentação densa, construída quase como uma aula sobre os movimentos históricos que moldaram a economia contemporânea.
Na primeira parte da exposição, Guedes percorreu de forma didática os principais acontecimentos geopolíticos desde a Primeira Guerra Mundial. Passou pela reorganização das potências após os grandes conflitos, pela Guerra Fria, pela ascensão econômica da China, pelas mudanças no sistema monetário internacional e pela globalização financeira que redesenhou relações econômicas nas últimas décadas.
Ao conectar guerras, juros, moedas e disputas comerciais, o economista procurou demonstrar como os ciclos históricos alteram centros de poder econômico e capacidade de influência das nações. Em vários momentos, associou movimentos do passado às tensões atuais envolvendo Estados Unidos, China, Europa e mercados emergentes.
A análise ganhou profundidade ao abordar o impacto da reorganização das cadeias produtivas globais, da disputa tecnológica e da nova corrida por segurança alimentar e energética. Nesse contexto, o agronegócio brasileiro apareceu como peça estratégica dentro de uma economia mundial cada vez mais pressionada por instabilidade geopolítica e necessidade de abastecimento.
Foi na segunda parte da palestra, porém, que o discurso assumiu tom mais incisivo. Guedes passou a relacionar diretamente os movimentos internacionais à realidade brasileira, defendendo previsibilidade econômica, estabilidade institucional e ambiente favorável ao investimento produtivo como condições centrais para crescimento sustentável.
Segundo ele, o Brasil possui vantagens estruturais relevantes em produção de alimentos, energia e recursos naturais, mas enfrenta dificuldades históricas ligadas ao ambiente fiscal, burocracia, insegurança jurídica e baixa capacidade de planejamento de longo prazo. Na sua avaliação, juros, confiança institucional e credibilidade econômica são fatores decisivos para determinar o ritmo de crescimento do país.
A leitura encontra forte aderência no Rio Grande do Sul, especialmente em regiões exportadoras como o noroeste gaúcho. Em cadeias altamente conectadas ao mercado internacional, como soja e proteína animal, oscilações cambiais, crédito e ambiente econômico global impactam diretamente decisões de investimento dentro das propriedades rurais.
A presença de Paulo Guedes também simboliza uma mudança de perfil da própria Fenasoja. Em sua edição de 60 anos, a feira amplia a dimensão econômica e política de sua programação, aproximando o setor produtivo de debates antes restritos aos grandes fóruns nacionais.
No encerramento, ficou evidente que a palestra não se limitou à análise de indicadores econômicos. Funcionou como uma interpretação ampla das transformações do poder global e dos desafios brasileiros em um cenário internacional cada vez mais competitivo, instável e interdependente. Agradecimento especial à Prefeitura de Santa Rosa, à presidência da Fenasoja 2026 e à ACISAP pela realização de um dos debates econômicos mais relevantes desta edição da feira. (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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