Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 26 de maio de 2026
Após surgirem na arena eleitoral impulsionados pelo influenciador e ex-candidato à Prefeitura de São Paulo Pablo Marçal em 2024, os chamados “cortes virais” — trechos curtos e dinâmicos extraídos de vídeos longos para maximizar o compartilhamento nas redes sociais — devem ganhar ainda mais espaço na disputa digital pela atenção do eleitor nas eleições deste ano. Nos últimos dois anos, o aumento da busca por viralização entre influenciadores ajudou a criar um ecossistema de plataformas e profissionais especializados em edição de vídeos, estrutura que também poderá ser utilizada por candidatos em outubro.
“Disputa-se atenção em um feed cheio de outras coisas, e o corte captura a essência da comunicação, buscando trechos que engajam mais”, afirma o professor e pesquisador da USP Pablo Ortellado. Segundo ele, o sucesso da estratégia depende da quantidade de vídeos produzidos. “É um processo de tentativa e erro”, acrescenta.
Neste ano, o Tribunal Superior Eleitoral proibiu a contratação, “sob qualquer modalidade”, de pessoas para realizar publicações de caráter político-eleitoral em perfis próprios, vedando os chamados “campeonatos de cortes”. Nesse modelo, editores recebem recompensas conforme o número de visualizações alcançadas pelos vídeos. A prática foi um dos fatores que levaram à inelegibilidade de Marçal, que utilizou os torneios para ampliar o alcance de sua campanha nas redes sociais.
“Os torneios de cortes são uma derivação da maneira pela qual as pessoas se engajam com conteúdo nas redes, que podem parecer orgânicas, mas possuem incentivo econômico”, afirma o professor da Uerj e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade, Carlos Affonso Souza. “A resolução do TSE busca responder ao problema da forma como ele apareceu na eleição passada”, completa.
Voltadas inicialmente para influenciadores, artistas sertanejos e empresários, plataformas como Clipei e Clipfy surgiram para organizar e distribuir cortes virais. Influenciadores como Felca e Renato Cariani estão entre os usuários desse modelo. Além disso, aplicativos baseados em inteligência artificial passaram a acelerar a produção dos vídeos. A ferramenta Real Oficial, lançada neste ano, promete gerar cerca de 15 cortes para cada 30 minutos de gravação, utilizando parâmetros como tom de voz, humor e expressões faciais para identificar trechos considerados mais impactantes.
Movimentos e partidos políticos também têm investido na criação de estruturas próprias para distribuição de conteúdo. Em janeiro de 2025, o Movimento Brasil Livre lançou a “Máquina de Cortes”, curso on-line que promete formar “engenheiros de narrativas” e ensinar técnicas de viralização. Segundo a página do projeto, participantes poderiam obter renda com conteúdos monetizados em plataformas digitais.
Em vídeo de divulgação, Renan Santos, então ligado ao grupo e atualmente filiado ao Partido Missão, afirmou que os cortes “vêm alterando a realidade e a formação da opinião pública”.
Segundo o material do curso, um dos alunos teria faturado R$ 13 mil em um mês no YouTube com monetização de vídeos. O MBL afirma, contudo, que não utiliza os conteúdos produzidos pelos alunos em suas redes oficiais, nem promove competições entre editores. O grupo também sustenta que o curso possui caráter “agnóstico”.
Questionado sobre o incentivo financeiro relacionado à monetização, o Partido Missão afirmou, em nota, que não remunera páginas de cortes e que o conteúdo institucional permanece restrito aos canais oficiais da legenda.
Sob nova direção desde a posse de Edinho Silva na presidência do PT, a Secretaria de Comunicação do partido também ampliou os investimentos em treinamento digital. Uma das iniciativas foi o seminário PTech, realizado em outubro, com participação de representantes de plataformas como Instagram, Kwai, TikTok e CapCut.
Novos treinamentos devem ocorrer em junho. No portal Pode Espalhar, o partido disponibiliza cortes de discursos e entrevistas de lideranças petistas, destacando pautas alinhadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como o fim da escala 6×1.
“Promovemos uma estratégia de redes sociais em que o foco está na rapidez e na fluidez da informação, com cortes de entrevistas, discursos e resoluções do PT, do presidente Lula e das nossas lideranças”, afirma o secretário de Comunicação do partido, Éden Valadares.
(Com O Globo)
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