Quarta-feira, 20 de maio de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 20 de maio de 2026
A promessa era repetida nos comícios de Donald Trump em 2024, para delírio da militância: “[Se voltar à Casa Branca] Eu serei a sua vingança”. Dito e feito. Lá se vão quase 500 caóticos dias da segunda temporada do republicano em Washington e uma das solitárias certezas do Trump 2.0 é a busca incessante pelo que o trumpismo traduz, de forma cínica e partidária, como “reabilitação moral” de investigados e condenados pela Justiça. Entre eles o próprio presidente, após pentes-finos institucionais iniciados antes mesmo de ele deixar o governo pela primeira vez, em janeiro de 2021, após perder nas urnas para Joe Biden.
O anúncio de um fundo de R$ 1,77 bilhão a ser usado para indenizar aliados que alegam ter sido vítimas de perseguição do governo anterior em um farsesco, perigoso e cada vez mais caro quebra-cabeças de revisionismo histórico. A contrapartida é o fim de uma ação em que Trump pedia R$ 50 bilhões por vazamento da Receita Federal de seus dados fiscais. Miragem. Não há barganha alguma e a conta não fecha para o contribuinte americano, que bancará a nova “iniciativa contra a instrumentalização política”.
Trump não esquece a humilhação de ter sido o único presidente dos EUA que enfrentou dois processos de impeachment. Em 2019, por abuso de poder e obstrução do Congresso. Dois anos depois, uma semana antes do fim de seu primeiro mandato, pela incitação aos negacionistas que destruíram o Capitólio, com a morte de pelo menos cinco cidadãos americanos.
Em ambos os processos, ele foi considerado culpado pelo ente acusador, a Câmara, à época controlada pelo Partido Democrata, e absolvido pelo julgador, o Senado, onde o Partido Republicano tinha mais cadeiras. O nova-yorkino jurou revanche.
Trump identificou tentativa de apagamento de seu legado e, por extensão, argumenta, do país desejado pelo Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês). Ainda na campanha de 2024, valeu-se das nomeações mais importantes de seu primeiro quadriênio na Casa Branca, a de três juízes conservadores à Suprema Corte, para conquistar a primeira e mais importante das blindagens, a ele mesmo.
Quatro meses antes das urnas revelarem sua vitória sobre a então vice-presidente Kamala Harris, os magistrados analisaram a acusação de que Trump tentara manipular o pleito anterior. A maioria da Suprema Corte decidiu pela anistia perpétua a quaisquer decisões oficiais de presidentes em exercício do cargo.
Em seu voto pela dissidência da minoria, formada por três juízas, Sonia Sotomayor sublinhou o que identificou ser uma das maiores afrontas à democracia americana, iniciada há 250 anos para se contrapor ao absolutismo monárquico: “A relação entre o presidente da República e o povo a quem ele serve foi alterada de modo irrevogável. Ele se tornou, a partir de hoje, um Rei acima da lei”. Dito e feito.
Ungido desta vez pela maioria dos eleitores, Trump logo perdoou os condenados pela invasão ao Capitólio. À chiadeira das vozes que denunciaram a decisão como um incentivo à violência política, o presidente aumentou a aposta. E arregimentou recém-absolvidos para trabalhar no próprio Departamento de Justiça.
Os interesses, inclusive financeiros, do cidadão Donald Trump e do presidente, se confundem de forma ainda mais óbvia no novo fundo. Não se sabe quem, ou de que forma, determinará se houve, de fato, perseguição política, e o valor das indenizações.
Apartidária e dedicada a monitorar abusos éticos no governo federal, a Citizens for Responsibility and Ethics in Washington sintetizou a iniciativa como “uma das mais corruptas da história do país”. O diplomata Norm Eisen, fundador do Democracy Defenders Fund, classificou-a como “descarada extorsão do contribuinte americano”. E a bancada do Partido Democrata na Câmara entrou na Justiça contra o que teme ser um esquema bilionário de financiamento a candidatos trumpistas país afora.
(O Globo)
Após enviar seu primeiro comentário, você receberá um email de confirmação. Clique no link para verificar seu email - depois disso, todos os seus próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
Você só precisa verificar uma vez a cada 30 dias.