Terça-feira, 13 de outubro de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 10 de setembro de 2026
O uso de medicações para obesidade compradas pela internet ou importadas com procedência duvidosa e aplicadas por conta própria virou um problema de saúde pública.
O alerta não é sobre uma determinada faixa etária. Vale para o adulto que quer perder quatro quilos antes de uma festa; para o adolescente com questões inerentes à idade e, no extremo mais grave, para a criança obesa que recebe uma injeção sem nenhuma indicação.
O que une esses casos não é idade nem necessidade: é a ausência do que é necessário em qualquer tratamento seguro de saúde: diagnóstico, prescrição, procedência e acompanhamento.
Vale começar pelo entendimento do que esses remédios de fato são. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, imitam um dos hormônios que o próprio corpo produz no intestino para estimular a produção de insulina. A tirzepatida, mais recente, simula o GLP-1 e também o GIP (Peptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose), que tem função semelhante.
Todas essas substâncias sintéticas reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam a controlar a ingestão alimentar. São tratamentos legítimos para uma doença crônica, a obesidade, que tem base biológica —não é uma questão de força de vontade.
Tratar a obesidade como fraqueza de caráter ou falta de vaidade é parte do que nos trouxe até aqui. O estigma empurra as pessoas para soluções rápidas e escondidas, no contrabando ou pela internet, em vez de recorrerem ao cuidado de um profissional de saúde. Reconhecer a obesidade como doença é o que separa o uso responsável de remédios eficazes do improviso perigoso.
Em adultos, o programa de estudos STEP mostrou perda média de cerca de 15% do peso corporal com a semaglutida, e os estudos SURMOUNT chegaram a cerca de 20% com a tirzepatida. É um avanço real, e é justamente por serem eficazes que esses medicamentos merecem respeito, e não a sua banalização. Ser legítimo, no entanto, não significa que seu uso é livre e irrestrito.
Todo medicamento eficiente tem indicação, dose, contraindicação e efeitos adversos. E é exatamente isso que se perde quando uma substância assim vira produto de balcão.
Caixa de surpresas
O primeiro risco dos medicamentos adquiridos sem prescrição médica é o de não haver procedência. Uma medicação trazida na mala, sem registro na Anvisa e sem controle de transporte e armazenamento, não oferece segurança sobre o que há dentro dela.
A pessoa não sabe a dose real que aplica, nem se o frasco corresponde ao rótulo. O mesmo vale para versões manipuladas vendidas sem o devido controle: sem rastreabilidade, não há como assegurar dose nem pureza. Nenhum benefício justifica esse risco.
O segundo risco é a automedicação. Prescrever esses medicamentos exige um passo que a compra pela internet pula: o diagnóstico. É preciso avaliar se há de fato indicação, rastrear contraindicações, ajustar a dose de forma gradual e acompanhar a resposta.
O acompanhamento não termina na primeira receita: envolve reavaliar tolerância, resposta e manutenção ao longo do tempo. Sem isso, efeitos gastrointestinais como náusea e vômito ficam sem manejo, e condições que desaconselham o uso passam despercebidas.
Fora efeitos colaterais graves que podem aparecer, como pancreatites, infecções nos locais de punção ou sistêmicas e mesmo hipoglicemia severa, pela falta de controle na purificação da molécula ou maior concentração do princípio ativo do que está descrito no rótulo.
É aqui que entra a indicação clínica, que existe e é mais estreita do que a propaganda sugere. Em adultos, a indicação formal é para obesidade associada a uma complicação relacionada ao peso e sempre acompanhada de mudanças no estilo de vida. Não é para quem quer perder alguns quilos por estética.
É oportuno fazer uma distinção que ajuda a entender quando tratar. O The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou, no início de 2025, um parecer que estabelece novas formas de diagnóstico para o tratamento da obesidade, separando os pacientes, de acordo com a gravidade da doença, em dois grupos: obesidade clínica e pré-clínica.
Na obesidade clínica, o excesso de gordura já compromete a função de órgãos e tecidos ou limita as atividades do dia a dia. É uma doença instalada, e tem indicação de tratamento imediato. Na obesidade pré-clínica, ainda não há essa disfunção, mas existe risco aumentado.
Nesse caso, o acompanhamento médico é obrigatório, e o tratamento pode estar indicado dependendo do risco que aquele excesso de peso impõe à saúde da pessoa. Em nenhum dos cenários, porém, a resposta é um medicamento sem aprovação, comprado por conta própria. Com informações da Folha de S. Paulo.
Após enviar seu primeiro comentário, você receberá um email de confirmação. Clique no link para verificar seu email - depois disso, todos os seus próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
Você só precisa verificar uma vez a cada 30 dias.