Sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 16 de outubro de 2026

Presidente do IRGA: RS responde por 70% do arroz brasileiro e mantém expectativa de boa safra
Alexandre Velho diz que o El Niño pode afetar a produtividade, mas descarta problemas de abastecimento e aponta clima, endividamento e mudança no perfil do consumidor entre os principais desafios da cadeia arrozeira
Responsável por cerca de 70% da produção brasileira de arroz e por uma colheita anual próxima de 8 milhões de toneladas, o Rio Grande do Sul inicia uma nova safra sob influência do fenômeno El Niño. Apesar das preocupações climáticas, o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), Alexandre Azevedo Velho, avalia que o Estado deverá manter sua capacidade de abastecimento e continuar exercendo papel estratégico na segurança alimentar do país.
Com mais de quatro décadas de atuação no setor e após nove anos à frente da Federarroz, Velho recebeu a reportagem da Rede Pampa para analisar os desafios da próxima safra, o cenário econômico dos produtores e o papel da pesquisa na competitividade da cadeia produtiva.
El Niño preocupa, mas safra deve garantir abastecimento
A principal preocupação para o ciclo atual é a previsão de um El Niño de forte a muito forte intensidade. Segundo o dirigente, as condições climáticas já provocam atrasos no plantio em algumas regiões produtoras.
“Temos este ano alguns prognósticos bastante preocupantes, principalmente com a previsão de El Niño forte a muito forte, e isso tem trazido algumas questões de atraso no plantio da safra de arroz”, afirmou.
O presidente do IRGA ressalta, porém, que os impactos não são uniformes. O arroz gaúcho é cultivado em seis regiões da Metade Sul, com comportamentos climáticos distintos. Na Fronteira Oeste, responsável por cerca de 30% da área plantada, o menor volume de chuva registrado em setembro permitiu avanço mais rápido do plantio.
Apesar da perspectiva de menor produtividade em algumas áreas, o instituto mantém avaliação positiva para a safra.
“Existe uma perspectiva de diminuição da produtividade em função da menor luminosidade e da questão das chuvas, mas mesmo assim a gente espera ainda uma safra boa, uma safra que traga tranquilidade com relação ao abastecimento”, disse.
Pesquisa e tecnologia sustentam liderança gaúcha
Para enfrentar os desafios climáticos e produtivos, o IRGA aposta na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico. O instituto mantém acompanhamento meteorológico permanente, com informações semanais repassadas aos produtores para apoiar o planejamento das lavouras.
“Estas informações são divulgadas semanalmente, e isso é uma ferramenta que o órgão fornece aos produtores para que eles tenham uma assertividade maior com relação ao seu planejamento”, explicou.
Além do monitoramento climático, o instituto investe em cultivares adaptadas às condições da rizicultura gaúcha.
“O IRGA também desenvolve cultivares de arroz adaptadas ao nosso clima, que fornecem uma condição de altas produtividades para enfrentar um custo de produção muito alto que o arroz irrigado gaúcho tem.”
Segundo Velho, duas novas cultivares estão sendo lançadas com foco em produtividade e resistência a doenças.
“Estamos lançando duas novas cultivares de arroz, que têm toda uma tecnologia embarcada para altas produtividades. Elas têm resistência a doenças, então isso traz um uso mais racional dos defensivos agrícolas.”
O dirigente destaca que cerca de 60% da tecnologia atualmente utilizada nas lavouras brasileiras tem origem em materiais desenvolvidos pelo próprio IRGA, resultado de décadas de pesquisa, melhoramento genético e parcerias com entidades como Embrapa e FLAR.
Gestão técnica busca fortalecer o instituto
Primeiro presidente do IRGA oriundo diretamente da liderança setorial após longa trajetória em entidades representativas dos produtores, Velho afirma que sua gestão tem como prioridade modernizar processos internos e ampliar projetos voltados ao desenvolvimento da atividade.
“Eu sou classista. Passei pela vice-presidência da Federarroz, me tornei presidente e fui reeleito por unanimidade. Essa origem é a que me traz hoje ao IRGA.”
Segundo ele, a meta é fortalecer a atuação técnica do instituto e ampliar o apoio aos produtores.
“Nosso desafio é montar projetos que realmente tenham uma estrutura voltada para o auxílio aos produtores.”
Endividamento ainda preocupa produtores
Apesar da perspectiva positiva para a produção, a situação financeira de parte dos arrozeiros permanece delicada. Para Velho, o endividamento resulta da combinação entre juros elevados, baixa rentabilidade em determinados períodos e os prejuízos causados por eventos climáticos extremos.
“O produtor não coloca preço no seu produto. Isso depende de oferta e demanda, depende de mercado internacional e de muitos fatores que fazem a formação do preço”, observou.
Ele lembra que secas e enchentes registradas nos últimos anos provocaram perdas significativas em diversas regiões produtoras.
“Tivemos anos de seca e depois tivemos enchente. Algumas regiões perderam suas produções, perderam máquinas e equipamentos. Isso tudo nos trouxe um prejuízo bastante grande.”
Na avaliação do dirigente, a sustentabilidade da atividade depende de equilíbrio entre a remuneração dos produtores e preços acessíveis aos consumidores.
“Precisamos de um equilíbrio. Não um preço tão baixo que não remunere os produtores e também não um preço tão alto que traga prejuízo aos consumidores.”
Novo consumidor desafia cadeia produtiva
Além das questões climáticas e econômicas, o setor acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Segundo Velho, a correria do dia a dia e o aumento do consumo de refeições rápidas têm reduzido a presença do arroz na alimentação de parte da população.
“Temos uma tendência de diminuição nos últimos anos em função do estilo de vida das pessoas. O consumo de fast-foods está aumentando”, afirmou.
Para reverter esse cenário, o IRGA retomou campanhas de valorização do cereal e de incentivo ao consumo.
“Temos consciência de que precisamos retomar o consumo ou diminuir essa curva de redução e voltar a aumentar o consumo de um produto tão nobre.”
Com produção próxima de 8 milhões de toneladas por safra e liderança absoluta no mercado nacional, o arroz segue entre as atividades mais relevantes do agronegócio gaúcho. Para Alexandre Velho, o futuro da cadeia passa pela combinação entre pesquisa, inovação, gestão eficiente, sustentabilidade e capacidade de adaptação a um consumidor cada vez mais exigente, garantindo competitividade a um setor estratégico para a economia e para a segurança alimentar do Brasil.(por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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