Sábado, 18 de julho de 2026

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Voltar Documentarista dos presidentes brasileiros, Silvio Tendler morre aos 75 anos

Um dos mais renomados documentaristas brasileiros, em atividade há mais de quatro décadas, Silvio Tendler faleceu nessa sexta-feira (5), aos 75 anos, vítima de uma infecção generalizada. O cineasta estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, Zona Sul do Rio. O velório acontecerá no domingo (7), às 10h, no Cemitério Comunal Israelita do Caju, na Zona Portuária carioca, seguido pelo enterro às 11h. A informação foi confirmada por familiares do artista.

Autor de mais de 70 filmes, entre curtas, médias e longas, Tendler ajudou a contar a história política do Brasil através de documentários como “Os anos JK — Uma trajetória política” (1981), “Jango” (1984), “Marighella, retrato falado do guerrilheiro” (2001), “Tancredo: A travessia” (2010), dentre outros.

“Silvio Tendler é um dos cineastas essenciais do último meio século no Brasil. Sua obra foi fundamental para a afirmação e renovação do documentário brasileiro e para a compreensão da história nacional em torno do trágico evento mais marcante para sua geração: o golpe civil-militar de 1964 e a ditadura que se instalou por 21 anos”, destaca Amir Labaki, diretor do festival É Tudo Verdade. — Tendo por mentores um triunvirato de documentaristas socialistas formado por Chris Marker, Joris Ivens e Santiago Alvarez, Tendler realizou uma vasta filmografia quase exclusivamente não-ficcional, que pode ser dividida em retratos históricos e ensaios militantes.

O do meio de três irmãos (o engenheiro Sérgio Tendler, o mais velho, e o artista plástico Sidnei Tendler, o caçula), o cineasta também se interessou em registrar as histórias de vida de importantes nomes da arte brasileira. Realizou os documentários “Castro Alves — Retrato falado do poeta” (1999), “Glauber, labirinto do Brasil” (2003) e “Ferreira Gullar — Arqueologia do poeta” (2019).

Lançado em 1981, “O mundo mágico dos Trapalhões”, sobre o grupo de humor formado por Renato Aragão, Dedé Santana, Zacarias e Mussum, detém até hoje o recorde de documentário de maior público nos cinemas brasileiros. O filme foi assistido por 1,8 milhão de espectadores, segundo números da Ancine.

“Silvio será sempre lembrado pelo espírito combativo, pelo cinema aguerrido, e pela defesa de uma sociedade mais justa e igualitária. Foi um dos pioneiros de um cinema de arquivo entre nós, com dois clássicos absolutos: ‘Os anos JK’ e ‘Jango’, sua obra-prima”, comenta Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio.

Em 2023, Tendler lançou seu último longa, o documentário “O futuro é nosso!”, feito a partir de entrevistas por videoconferência realizadas durante a pandemia, com a participação de nomes como o cultuado cineasta britânico Ken Loach. Conhecido como o “o cineasta dos vencidos”, o diretor assinou o último longa como “um filme utópico de Silvio Tendler”.

No mesmo ano, Tendler atuou como fotógrafo e curador de uma exposição, “Resistência retiniana”, no Sesc Niterói, e estreou como dramaturgo e diretor de teatro com o espetáculo “Olga e Luís Carlos, uma história de amor”, no Sesc Copacabana, baseado na troca de correspondência entre o líder comunista brasileiro e a militante alemã de origem judaica entregue aos nazistas pelo governo Vargas, em 1936.

Desde 2011, o diretor enfrentava dificuldades de locomoção, depois que um defeito congênito quase o deixou tetraplégico. Operado pelo neurocirurgião Paulo Niemeyer, recuperou parte dos movimentos dos membros superiores, e seguiu trabalhando. Parte desta jornada foi retratada no documentário “A arte do renascimento — Uma cinebiografia de Silvio Tendler”, de Noilton Nunes.

Nos últimos anos, além dos problemas de saúde, Tendler lutou contra a dificuldade em tirar seus projetos cinematográficos do papel.

Ainda em 2025, Silvio Tendler recebeu a Ordem do Mérito Cultural.

Nascido no Rio de Janeiro no dia 2 de março de 1950, Tendler desenvolveu sua paixão pelo cinema ao frequentar a cena de cineclubes cariocas nos anos 1960. Em 1969, ingressou no curso de Direito na PUC-Rio, mas pouco depois abandonou os estudos para se dedicar ao cinema.

Em 1970, se mudou para o Chile entusiasmando com a vitória de Salvador Allende. Permaneceu no país por quase dois anos, deixando-o um ano antes do golpe militar comandado por Augusto Pinochet. Em 1972, o cineasta viajou para a França para concluir seus estudos em Cinema e História. Em Paris, acabou desenvolvendo uma amizade com o diretor e etnólogo Jean Rouch, que o incentivou a se especializar no cinema documental.

O diretor retornou ao Brasil no final dos anos 1970, quando começou a desenvolver o documentário “Os anos JK” e a ministrar um curso de Cinema e História na PUC-Rio. Integrou o corpo docente da instituição por mais de 40 anos.

“A PUC-Rio expressa sua solidariedade à família, aos amigos e à comunidade cultural neste momento de perda, e rende gratidão por sua contribuição acadêmica e humana, que permanecerá viva na história da Universidade”, destacou a PUC-Rio em nota de pesar.

Silvio Tendler deixa a filha, a produtora Ana Tendler, o neto, Ernesto, e dois bichos de estimação, o cão da raça cane corso Camarada e a calopsita Renê, importantes companhias durante a pandemia da Covid-19. As informações são do jornal O Globo.

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