Terça-feira, 31 de março de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 22 de janeiro de 2026
Pesquisadores das faculdades de Medicina e de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), junto a universidades do Japão, da Dinamarca e dos Estados Unidos, investigam o uso das chamadas canetas emagrecedoras por pessoas sem indicação clínica. O cenário avança rapidamente em diversos países, segundo artigo publicado na revista científica Obesity.
No Brasil, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), medicamentos como Ozempic e Mounjaro só podem ser vendidos com receita médica e só devem ser usados por pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2. Nas redes sociais e em círculos de convivência, porém, há relatos de usuários que obtiveram prescrições sem justificativa clínica ou compraram os produtos em farmácias e canais clandestinos.
O estudo parte de dados empíricos, já que não há dados científicos consolidados sobre o uso off-label (fora das indicações médicas). Com dessa lacuna, médicos se uniram a antropólogos e cientistas sociais para investigar o fenômeno, que, segundo eles, já transforma padrões de consumo, relações sociais e políticas públicas.
Bruno Gualano, professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, resolveu se aproximar mais das ciências sociais pela preocupação com a amplitude das mudanças observadas. “Esses medicamentos são uma revolução não só biomédica, mas sociocultural. Eles têm alterado a relação das pessoas com o corpo, a saúde, a alimentação e a economia”, diz.
Para ele, ainda estamos na fase de “lua de mel” com as drogas emagrecedoras, observando seus efeitos positivos no controle da glicemia, na perda de peso e na prevenção de doenças crônicas. Mas, a longo prazo, pode ser que o cenário mude.
O objetivo inicial era entender por que indivíduos têm recorrido aos remédios sem indicação e comparar o fenômeno entre países. Para isso, foi aplicado um questionário online, cujas respostas embasam o estudo e outras análises em andamento.
Símbolo econômico
Segundo os autores, os usuários não buscam melhorias metabólicas, mas um ideal de magreza associado a status, desempenho e aceitabilidade social. Esse movimento integra o que chamam de “economia moral do corpo”, conceito das ciências sociais que trata da magreza como um passaporte simbólico para reconhecimento e vantagens profissionais.
“O acesso é muito caro, difícil para pessoas de baixo poder aquisitivo. Quem merece usar esse remédio?”, afirma Fernanda Scagliusi, também do Centro de Medicina do Estilo de Vida e autora do estudo. Ela diz que, num futuro próximo, magreza pode se tornar sinônimo de riqueza, e gordura, de pobreza. “O corpo vira uma arena de poder, já que certos corpos valem mais do que outros”, reforça Gualano.
Redes sociais
Os pesquisadores apontam as redes sociais como principal motivação para o uso off-label. Segundo Gualano, Instagram e TikTok funcionam como vitrines de corpos magros, impondo padrões estéticos a quem não se encaixa. Relatos de perdas rápidas de peso tornam-se referências e influenciam novos usuários.
O estudo ressalta que os efeitos adversos costumam ser pouco mencionados. “As pessoas têm efeitos colaterais graves, como vômitos e fraqueza. Há quem não consiga fazer atividade física por falta de energia. É preciso cautela na divulgação”, diz Scagliusi.
Para Gualano, as redes também reforçam uma contradição: “Em um primeiro momento, o usuário se sente aliviado por alcançar o padrão de normalidade. Logo depois, é tachado de ‘trapaceiro’, como se tivesse escolhido o caminho mais fácil. Esse sentimento já era comum entre pacientes que fizeram cirurgia bariátrica.”
Diferenças culturais
As análises comparativas mostram distinções marcantes: no Brasil, o medicamento é usado para lidar com padrões de beleza atravessados por raça e classe; nos EUA, é visto como tecnologia de autodisciplina; no Japão, se vincula à lógica de saúde pública; e, na Dinamarca, integra uma cultura de forte confiança biomédica.
A pesquisa conclui que, nesse contexto, o uso off-label deixa de ser percebido como desvio e passa a ser entendido por muitos como resposta racional à nova pressão estética. Segundo os autores, ainda não há respostas consolidadas sobre efeitos psicológicos e sociais do uso prolongado. “Até onde a falta de apetite não é um sintoma de transtorno alimentar? Até onde a falta de energia não indica depressão?”, questiona Gualano.
Permanecem abertas questões sobre impacto na autoestima, relação com a comida e dependência emocional do medicamento para manutenção do peso. Para os pesquisadores, a adesão massiva compõe um experimento social cujos custos humanos ainda não estão claros. (Com informações da Folha de S. Paulo
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