Terça-feira, 31 de março de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 23 de janeiro de 2026
“Donald Trump é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência, anti-problema climático. Ele é um retrocesso de valores.”
As frases acima são de Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, que dirigiu por dez anos o braço das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento, a Unctad, e é um dos maiores diplomatas brasileiros. “Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos”, teme. “A situação é muito grave e perigosa.”
Prestes a completar 89 anos – 68 deles atuando em relações internacionais –, Ricupero diz que o mundo que conheceu está acabando. Nesta entrevista ao Valor explica por que considera que está se voltando a um mundo pré-guerras. Diz que a América Latina é irrelevante, a Europa, enfraquecida e desunida, também, e que é a China quem hoje dá estabilidade ao cenário global. As eleições do Congresso americano em novembro serão importantes para sinalizar como serão os três últimos anos do governo Trump. A seguir, trechos da entrevista:
1. Como vê o momento atual no mundo, um ano depois do primeiro dia do governo Trump?
Rubens Ricupero: Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos há 80 anos. O atual governo americano representa a negação do mundo que foi criado pelos Estados Unidos de Franklin Roosevelt – com os valores do New Deal, de direitos humanos, combate ao desemprego, do estado de bem-estar social. Estamos assistindo a um retrocesso sistemático de todas as ideias que marcaram o avanço da consciência moral da humanidade em 80 anos. Eram ideias que tomávamos como irreversíveis. Achávamos que dali ia se avançar, agora estamos indo para trás.
2. O senhor já viveu algum momento assim?
Ricupero: Nunca vi uma coisa igual em toda a minha vida. Vou completar 89 anos. Nasci em 1937, antes da Segunda Guerra Mundial. Desde que comecei a atuar nas relações internacionais, nunca vi algo assim. Entrei no Instituto Rio Branco em 1958, um dos meus examinadores foi Guimarães Rosa. O mundo que conheci está acabando. Só não terminou inteiramente porque Trump não saiu do Conselho de Segurança, porque ali ele tem poder.
3. É uma ação sistemática?
Ricupero: Sim. Em 7 de janeiro, ele assinou a decisão de sair de 66 organizações internacionais, das quais 31 vinculadas à ONU. Estamos assistindo à destruição sistemática do mundo. Não é só a volta dos conflitos, é a anulação do sistema multilateral que foi criado para evitar conflitos. A Carta da ONU está sendo gradualmente destruída.
4. Pode explicar?
Ricupero: No final da Segunda Guerra Mundial, a ideia da criação da ONU era de substituir a segurança unilateral, que cada país garantia com as suas próprias forças, pela coletiva. O conceito de segurança coletiva é o seguinte: os conflitos seriam resolvidos por uma entidade internacional como uma espécie de poder judiciário, e o Conselho de Segurança teria a última palavra. Pela Carta da ONU, o uso da força é ilegal a não ser em legítima defesa ou pela decisão do Conselho de Segurança.
Hoje são 40 conflitos no mundo, e conflitos em violação da Carta da ONU. Voltamos a um mundo de antes de 1914. Agora ele tem a ideia de substituir o sistema multilateral pela vontade de uma só pessoa, o presidente dos Estados Unidos.
5. O senhor se refere ao Conselho de Paz, o organismo que Trump pretende criar?
Ricupero: Esse conselho, se entrasse em vigor, seria uma complicação enorme. Imagino que muitos dos países que ele convidou, a não ser os que fazem o jogo dele, vão hesitar. Duvido que o Brasil possa entrar até porque tem esse esquema de pagar US$ 1 bilhão para ser permanente. É uma tentativa realmente, como os antigos diziam, de criar um império universal. Ele quer ditar regras para todos. Nos deparamos com uma situação em que o sistema multilateral está sendo posto de lado e as ações são unilaterais. É uma situação nova, grave e perigosa.
6. Com as instituições multilaterais dilaceradas como estão sendo hoje, o que pode evitar que este processo seja interrompido antes que venha a alcançar o grau que o mundo viveu nos anos 30 e 40?
Ricupero: Vejo como única esperança o fato de que temos o efeito de dissuasão das armas nucleares – o grande fator que evitou uma Terceira Guerra Mundial foi, sobretudo, o poder destrutivo das armas nucleares. O poder destrutivo das armas nucleares é tão grande que é uma questão de autopreservação. Todo mundo sabe que uma guerra nuclear não terá vencedores nem vencidos, todos serão perdedores. (As informações são do Valor Econômico)
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