Quarta-feira, 29 de junho de 2022

Quarta-feira, 29 de junho de 2022

Voltar Siameses

Na Revolução Francesa de 1789, durante as assembleias, os delegados que defendiam a manutenção da situação vigente à época sentavam-se à direita, enquanto aqueles que lutavam por mudanças, perfilavam-se à esquerda. Desde então, esquerda e direita representam o progressismo e o conservadorismo, hoje com o acréscimo de novos matizes que o tempo se encarregou de produzir. Essa simplificação binária tem servido para acomodar, não sem naturais dificuldades, a expressão das diversas ideologias, como se trilhas fossem, cada qual abrigando um conjunto de crenças sobre a ordem e o modo adequados para um eficiente funcionamento da sociedade. A atual clivagem dos dois polos antagônicos não tem ocorrido, entretanto, sem um aumento das tensões, e esse fenômeno não é apenas local, mas acomete o mundo todo, num processo que tem levado estudiosos, políticos e demais formadores de opinião a uma pergunta basilar: a convivência entre progressistas e conservadores chegou a um ponto de eventual ruptura? O iluminismo e a Revolução Industrial teriam exaurido suas forças propulsoras originais que fixaram as bases de uma sociedade dividida entre capital e trabalho? O desemprego estrutural, o aumento da longevidade nas sociedades ocidentais, o descomunal acúmulo de riqueza entre poucos e a revolução da internet teriam tornado insuficiente o exoesqueleto institucional tão bem pensado por Montesquieu? Diante desse quadro, sinais inquietantes de desassossego social emergem pelo planeta e reclamam por um necessário melhor entendimento do que se passa, até porque as nuances envolvidas são tamanhas que não é desprezível imaginar que o próprio futuro da democracia esteja em jogo.

Um exercício analítico, contudo, não é tarefa simples, tampouco desprovida de alguns requisitos essenciais, sendo o maior deles uma necessária humildade para reconhecer que nem a esquerda nem a direita estão, isoladamente, com a plena razão. De fato, ao contrário, são até necessariamente complementares, mais inclusive do que poderiam supor. Nessa linha, a crescente dificuldade em harmonizar o atual embate de visões à esquerda e à direita não mais se resume à defesa de uma eventual posição de inclinações por mudanças versus manutenção do “status quo”. Mais do que isso, a evolução da complexidade social agregou novos elementos, muitos até idiossincráticos, o que torna a compreensão do tema obrigatoriamente mais plural. Estão envolvidos, por certo, fatores culturais, sociais, de autointeresse, econômicos, religiosos, políticos, educacionais e uma infinidade de questões circunstanciais que conformam o tronco de uma bifurcação siamesa que teima em se defrontar perpetuamente. Buscar, nesse contexto, alguém que se enquadre ideologicamente sob medida no figurino A ou B é tão improvável quando exaustivo.

Esse desfecho nos leva naturalmente à conclusão de que a circunscrição ideológica, se necessária para abrigar um contexto mais abrangente, torna-se claudicante quando orientada para análises individuais, cada uma refém de suas próprias especificidades. Desse modo, tratar genericamente os comportamentos políticos, situando-os como originalmente foi possível a partir da matriz de uma França conflagrada, onde o acaso nos legou uma herança terminológica hoje insuficiente, pode desfavorecer os próprios fundamentos democráticos, já que o albergue para uma sociedade multifacetada como a atual não comporta mais qualquer tomada binária e maniqueísta da realidade. Antes ao contrário, supor que isso seja possível, mais do que impedir uma adequada compreensão dos motivos da polarização que vivemos, submete-nos ao duro teste de expor as instituições aos caprichos de quem porventura encontra abrigo, inclusive para propósitos obscuros, numa simplificação que perdeu parte do sentido, mas não sua importância histórica. É preciso, em contraposição ao diálogo de surdos que domina o cenário, acreditar e agir no sentido de estabelecer premissas mais abertas e inclusivas. Ainda há tempo!

 

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