Segunda-feira, 22 de julho de 2024

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Voltar “Sangue dos mártires”: ‘Bandeira vermelha da vingança’: entenda gesto do Irã após atentado que matou 84 no país

A bandeira vermelha, que simboliza vingança, foi hasteada sobre a cúpula sagrada da mesquita de Jamkaran, em Qom, no Irã. O hasteamento ocorreu após o atentado a bomba que matou 84 pessoas que participavam de uma homenagem ao general Qassim Suleimani, assassinado num ataque com drone em 2020. Na tradição, as bandeiras vermelhas simbolizam a necessidade de uma vingança sangrenta.

Inicialmente, o Irã acusou Israel e os Estados Unidos de arquitetar os ataques, mas o Estado Islâmico reivindicou sua autoria na última quinta-feira (4). A bandeira foi hasteada pela última vez em 2020, em resposta à morte de Soleimani em um ataque de drone americano.

O estandarte ostenta a frase em árabe “Ya la-Tharat al-Hussein”, que traduzida fica “Ó vós, vingadores de Hussein”. Os dizeres fazem referência a Hussein, neto do grande profeta islâmico, Muhammed, e uma das figuras mais sagradas do islã xiita. Considerado a encarnação da justiça, esse personagem histórico morreu em 680 na batalha de Karbala, no atual Iraque.

Apesar do simbolismo vingativo, a bandeira também é hasteada para comemorar o mês de Muharram – um período religioso de comemoração a Hussein.

Entenda o atentado

As explosões ocorreram quando uma multidão marcava o quarto aniversário da morte de Soleimani, arquiteto das operações militares do Irã no Oriente Médio, em um ataque de drone americano em 3 janeiro de 2020 em Bagdá, capital do Iraque.

Chefe da força de elite Quds da Guarda Revolucionária, Soleimani projetou o eixo de influência do Irã no exterior, remodelando a geopolítica do Oriente Médio por meio de uma rede de grupos que se opõem a Israel, incluindo o movimento xiita libanês Hezbollah e o grupo fundamentalista islâmico Hamas. Também era muito respeitado na República Islâmica por seu papel na derrota do EI no Iraque e na Síria.

No Telegram, o EI chamou o atentado de quarta de “dupla operação de martírio” e descreveu como dois de seus membros, identificados pelos nomes de Omar al-Mowahid e Sayefulla al-Mujahid, “detonaram seus coletes de explosivos” no meio de “uma grande multidão de apóstatas perto do túmulo do líder hipócrita”, referindo-se ao general.

Segundo analistas, o atentado sugere um ressurgimento sangrento da organização jihadista, que foi dizimada em 2019. Não está claro, porém, qual afiliada do EI teria cometido o massacre, apontado como o mais mortal em território iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979.

O anúncio coincide com as avaliações da Inteligência americana e de autoridades militares regionais, que apontaram como provável que o ataque fosse obra do grupo jihadista.

Afiliadas do EI

As autoridades americanas acreditam ser improvável que a intenção do EI fosse incriminar Israel pelos atentados ou desencadear uma guerra mais ampla. Em vez disso, provavelmente o grupo, que é sunita, está aproveitando uma oportunidade para atingir seu inimigo Irã, que tem um governo islâmico xiita e lidera, financia e arma grupos em todo o Oriente Médio — incluindo o Hamas, que governa a Faixa de Gaza e contra quem Israel trava uma guerra desde 7 de outubro.

O EI classifica os xiitas como hereges e já realizou vários ataques contra povos que seguem essa vertente da religião muçulmana, principalmente no Iraque. O grupo também reivindicou a responsabilidade por vários ataques anteriores no Irã, incluindo o mais recente, em outubro de 2022, quando um homem armado matou 13 pessoas em um santuário na cidade de Shiraz. As agências de inteligência iranianas disseram já ter frustrado uma série de conspirações jihadistas em seu território.

Para Mick Mulroy, ex-funcionário do Pentágono americano, o Estado Islâmico “não perdeu o interesse” pelo Irã, “mas parece ser um momento estranho para lançar um ataque com o atual conflito em Gaza e o apoio unificado dos muçulmanos aos palestinos”. A declaração do Telegram não especificou a afiliada do EI por trás dos atentados.

Colin Clarke, analista de contraterrorismo do Soufan Group, uma empresa de consultoria de segurança sediada em Nova York, suspeita que a afiliada do EI em Khorasan, também conhecida como ISIS-K (na sigla em inglês), sediada no Afeganistão, seja a provável autora do ataque.

Ali Vaez, do Crisis Group, explica que “a fronteira com o Afeganistão é porosa, o que facilita a entrada do ISIS-K [no Irã] e a realização desses ataques contra alvos fáceis”. Para ele, “o ataque em Kerman destacou mais uma vez a vulnerabilidade do Irã e o fracasso do governo em fornecer segurança”.

Desde que o califado autodeclarado do grupo terrorista foi derrotado em 2019, várias facções assumiram o território antes sob seu domínio, segundo relatório publicado em julho de 2022 pelo Crisis Group.

 

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