Domingo, 29 de março de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 14 de agosto de 2023
A declaração do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre um possível fim do rotativo do cartão de crédito pegou do sistema financeiro de surpresa por tornar pública uma discussão que vinha se desenrolando nos bastidores.
A solução é vista como uma das poucas viáveis de se implementar no curto prazo, e com menos efeitos colaterais. Com o fim do rotativo, os bancos terão uma redução em suas carteiras de crédito, com impacto na receita e alguma queda de rentabilidade. O efeito, no entanto, é visto como limitado, e ficaria restrito aos emissores de cartões. Credenciadoras, bandeiras e mesmo o varejo não seriam afetados.
Não é que os bancos gostem da ideia de perder receita, mas executivos do setor concordam que o juro do cartão é um problema grave e que se arrasta há muitos anos. A avaliação é que o dano causado à imagem das instituições financeiras é maior que o lucro obtido com essa linha.
A possibilidade do fim do rotativo estava entre um conjunto de alternativas elaboradas por uma consultoria contratada pelos grandes bancos. Esse estudo, inclusive, foi compartilhado com governo e parlamentares para mostrar os impactos de diferentes medidas. A ideia era explicar que um eventual teto de juros – a saída mais temida pelo setor financeiro – teria efeitos catastróficos sobre o consumo. Nessa batalha, os bancos foram buscar o auxílio do setor varejista para o convencimento das autoridades.
Em nota após a fala de Campos Neto, a Febraban afirmou que é necessário diluir os riscos entre os elos da cadeia de cartão de crédito, hoje concentrados nos bancos. E que o cartão deve ser mantido como relevante instrumento para o consumo. “Da mesma forma, deve haver o reequilíbrio da grande distorção que só o Brasil tem, com 75% das compras feitas com parcelado sem juros. Com base nessas premissas, a Febraban busca uma solução construtiva que passe por uma transição sem rupturas, que pode incluir o fim do crédito rotativo e um redesenho das compras parceladas no cartão”, disse.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que reúne instituições de médio porte, disse que é preciso um amplo debate para possibilitar as melhores condições estruturais para o mercado de crédito. “Um teto de juros poderá implicar desdobramentos extremamente contraproducentes, tais como a complexificação de entrada de novos players no mercado, a diminuição do acesso ao crédito e a redução da inclusão financeira.”
O diretor-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), Giancarlo Greco, comentou – antes da fala de Campos – que as discussões sobre eventuais mudanças no rotativo do cartão permanecem e que, nas próximas semanas, “devem se desenvolver com mais força”. A Zetta, que representa grandes fintechs, afirmou apenas que acompanha de perto as discussões e vai contribuir para o debate técnico.
Segundo informações do jornal Valor Econômico, o fim do rotativo teria impactos diferentes para cada instituição financeira. A lógica é que bancos com clientes de renda mais baixa, que usam mais o rotativo, seriam mais afetados. De qualquer forma, não seria nada tão substancial que faça alguma instituição lutar contra essa alternativa. “Não tem como agradar todo mundo, e essa solução é vista como o menor dos males”, comenta uma fonte com conhecimento das discussões.
Um alto executivo de banco diz que o rotativo existe em diversos países e que simplesmente extingui-lo não resolve o problema estrutural da indústria de cartões, incluindo o famoso parcelado sem juros. “Se for por esse caminho, teremos uma mudança artificial”, afirma, em tom algo resignado. As informações são do jornal Valor Econômico.
Foto: Agência Brasil
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