Sexta-feira, 14 de junho de 2024

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Voltar Para tirar a Argentina do buraco da enorme crise econômica em que mergulhou, é preciso, acima de tudo, jogo de cintura político

Javier Milei não é apenas o primeiro outsider a se eleger presidente da Argentina, é, também, o primeiro economista. Em suas próprias palavras, iniciará seu governo em momentos em que o país atravessa a pior crise econômica de sua História. Fazendo uma análise rápida e simples, quem melhor do que um economista para encarar o desastre econômico em que está mergulhado o país? Mas a análise da situação, quando se trata de Argentina, não pode ser rápida nem simples. Para tirar o país do buraco não basta ser um economista — para alguns, inteligente, para outros, delirante, e que já foi acusado de plágio em um de seus livros — é preciso, acima de tudo, ter jogo de cintura político.

O capital político de Milei são os 55% dos votos que obteve nas urnas. O presidente eleito tem um mandato popular forte, mas carece de poder institucional. Esse capital político poderá evaporar-se rapidamente, como se viu recentemente na região, entre elas a do chileno Gabriel Boric, quando a sociedade argentina — impaciente por natureza — considerar que as expectativas geradas não foram atendidas.

O humor social não será o único termômetro a ser observado. Há dois atores centrais na política argentina que serão forças opositoras: amplos setores do peronismo e, sobretudo, do kirchnerismo, e a grande maioria dos sindicatos. Recente estudo da Universidade Austral mostrou que desde 1983, ano da redemocratização, governos não peronistas enfrentaram quase o dobro de greves gerais do que os peronistas.

Nenhuma greve

No governo de Alberto Fernández, que deixará o país com 41% de pobreza, recessão e uma taxa de inflação que poderia chegar a 170% ao ano, não houve sequer uma greve. O governo do radical Raúl Alfonsín (1983-1989) suportou 13 paralisações. Durante os dez anos do peronista de direita Carlos Menem (1989-1999), a Central Geral dos Trabalhadores (CGT) organizou oito greves, o mesmo número que enfrentou o radical Fernando de la Rúa em só dois anos de mandato. Nos 12 anos de governos kirchneristas (2003-2015), houve 6 greves gerais, e nos quatro de Mauricio Macri (2015-2019), cinco. Antes mesmo da posse de Milei, a CGT já ameaçou: “Quando um direito [dos trabalhadores] for afetado, iremos pra rua.”

Milei e seus colaboradores — próprios, do partido de Macri e do peronismo que, como Milei, idolatra os governos de Menem — estão elaborando um plano econômico que tem pouco tempo para dar certo. A economia argentina, admitiu o presidente de uma grande empresa de alimentos, está semiparalisada. A grande maioria das fábricas dessa empresa está operando com apenas 50% de sua capacidade. Os problemas financeiros são outro enorme desafio: pela primeira vez na História, o Banco Central tem reservas líquidas negativas.

Milei já avisou que os primeiros meses de seu governo serão de estagflação, combo que mistura estagnação econômica com inflação alta. Nos supermercados de Buenos Aires, os preços são reajustados todos os dias. O país ainda não entrou tecnicamente numa hiperinflação (a taxa deve superar 50% ao mês), mas já se vive num clima de descontrole de preços internos.

Existem dúvidas sobre a capacidade do presidente eleito de gerar confiança no curto prazo e fazer articulações que garantam a governabilidade. Milei, confessou um de seus colaboradores, jamais pensou que venceria a eleição. Conseguida a proeza, resta saber se o primeiro presidente economista e antiperonista resistirá ao contra-ataque dos derrotados, que, todos sabem na Argentina, virá. E virá rápido.

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