Quarta-feira, 02 de setembro de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 20 de maio de 2026
Pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com 25 mil crianças de 5 anos de idade em nove países, incluindo o Brasil, apontou desenvolvimento prejudicado pela exposição diária a dispositivos digitais. A avaliação mediu vocabulário, resolução de pequenos problemas matemáticos e habilidades socioemocionais. No Brasil, a pesquisa foi realizada em São Paulo, Ceará e Pará e demonstrou que as crianças que acessam dispositivos diariamente apresentam desenvolvimento significativamente menor em literacia (interesse por livros, vocabulário, capacidade de compreender e produzir narrativas, reconhecimento de letras e palavras) e em noções de Matemática.
Uma avaliação realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) trouxe resultados inéditos sobre o impacto negativo do uso diário de dispositivos digitais por crianças de 5 anos. O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, na sigla em inglês) foi divulgado ontem e mostra o desempenho de alunos da pré-escola nas áreas de literacia (que antecede a alfabetização formal, como o interesse por livros e vocabulário), numeracia (primeiras noções de Matemática) e ainda em habilidades socioemocionais e nas funções executivas (como memória de trabalho e flexibilidade mental).
Esta foi a primeira vez, por exemplo, que crianças brasileiras da educação infantil foram avaliadas de forma direta, ou seja, por meio de atividades em tablets, além das perguntas feitas para professores e pais. A avaliação considera ainda Inglaterra, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Azerbaijão e Malta.
No Brasil, por causa de restrições orçamentárias, a amostra foi somente de crianças de três Estados: São Paulo, Ceará e Pará. O estudo foi realizado no País com o apoio de uma coalizão de entidades do terceiro setor, liderada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que considera a participação “uma conquista estratégica” para o Brasil. “Afinal: o que não se pode medir, não se pode melhorar”, cita o texto da apresentação do documento.
Os resultados mostram que as crianças brasileiras tiveram desempenho semelhante à média dos outros países em literacia (500 pontos), que são os conhecimentos e habilidades que antecedem a alfabetização formal, como o interesse por livros, o vocabulário, a capacidade de compreender e produzir narrativas, o reconhecimento de letras e palavras.
Já na numeracia, o resultado ficou abaixo da média internacional para crianças de 5 anos de idade. Ela envolve as primeiras noções de Matemática, como as habilidades de contar, comparar quantidades, reconhecer padrões, compreender relações espaciais e solucionar pequenos problemas do cotidiano.
Os pesquisadores ainda cruzaram os dados das crianças que acessam os dispositivos diariamente no País com seu desenvolvimento demonstrado na avaliação. E concluíram que o uso diário está associado a uma nota 10 pontos menor em literacia e 11 pontos menor em numeracia, quantidade considerada estatisticamente significativa. Também houve um impacto negativo na memória de trabalho e em todos os domínios socioemocionais, mas menos relevantes do ponto de vista estatístico. “Esses resultados não indicam que o uso de telas cause, diretamente, menor desenvolvimento. Não obstante, sugerem que o uso excessivo pode reduzir o tempo dedicado a atividades importantes para o desenvolvimento infantil, como brincar, se exercitar, conversar, ouvir histórias e interagir com outras crianças e adultos”, diz o estudo, conduzido no Brasil pelos pesquisadores Tiago Bartholo e Mariane Koslinski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Diversas evidências científicas já mostram que é na primeira infância que se constroem as bases do desenvolvimento integral da criança, com impactos ao longo da vida. O acesso à educação infantil de qualidade está associado a menor abandono escolar, maior desempenho acadêmico e melhores condições na fase adulta.
Entre exemplos de questões apresentadas para as crianças estão encontrar qual o triângulo de um conjunto de figuras e qual a bola maior, também em desenho com várias delas. Há ainda perguntas sobre as emoções dos personagens em desenhos apresentados ou outras de memória, em que a criança precisa lembrar onde a zebra estava sentada no ônibus, por exemplo.
Para crianças de 5 anos, as habilidades socioemocionais aparecem na forma como estabelecem vínculos seguros com adultos e outras crianças, expressam emoções e exploram o ambiente. As brasileiras tiveram resultados semelhantes à média internacional em empatia. Já nos outros componentes, como na capacidade de controlar atitudes agressivas ou de compartilhar e ajudar os outros, ficaram abaixo dos demais países.
As funções executivas, conhecidas como habilidades de autorregulação, também foram avaliadas. Elas permitem às crianças controlarem seus impulsos e sua atenção, organizarem informações e ajustarem seu comportamento em diferentes situações. Os brasileiros ficaram abaixo da média internacional.
O IELS também perguntou aos pais sobre a rotina das crianças em casa e os resultados mostraram que 50,4% delas utilizam dispositivos digitais, como celular e tablets, todos os dias – a média dos países participantes foi de 46%. Na Holanda, por exemplo, são 24%. Somente 11,4% das que participaram do estudo no Brasil nunca ou quase nunca acessam telas. Com informações do portal Estadão.
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