Terça-feira, 20 de outubro de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 19 de outubro de 2026
A taxa de mortalidade de mulheres por câncer no trato respiratório (que engloba pulmão, traqueia e brônquios) mais do que dobrou em duas décadas no País, subindo 118% entre 2004 e 2023, de acordo com dados do Atlas On-line de Mortalidade por Câncer do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde tabulados pelo médico Lucianno Santos, da Oncologia D’Or.
O aumento foi muito superior ao observado entre homens, grupo no qual a mortalidade bruta cresceu 23% no mesmo período. “Esse padrão reflete a incorporação mais tardia do tabagismo pelas mulheres em relação aos homens, que, historicamente, foram mais expostos ao cigarro”, avalia Santos, oncologista especializado em câncer de pulmão.
Os homens ainda são a maioria das vítimas desse tipo de câncer, mas a diferença entre os gêneros vêm caindo. De acordo com dados do portal Datasus, do total de mortos por esse tipo de tumor em 2003 no País, 32% eram mulheres. Em 2023, esse índice passou para 46%.
Embora o índice de fumantes tenha caído no Brasil nas últimas décadas, o crescimento da mortalidade é reflexo, em grande parte, do tabagismo das décadas de 1980 e 1990, explica a cirurgiã torácica Letícia Lauricella, do Hospital Samaritano.
“Muitos ex-fumantes acham que estão livres (de ter câncer de pulmão). O risco vai caindo ao longo dos anos, mas nunca vai ser igual ao de uma pessoa que nunca fumou. O cigarro causa alterações no DNA e danos permanentes nas células do pulmão. Quanto maior a carga tabágica (total de cigarros que uma pessoa fumou na vida), maior é o risco”, explica a médica.
Foi na década de 70 que a dentista Maria Angelina Zanzotti Kuroda, hoje com 72 anos, começou a fumar. Ela manteve o hábito por 38 anos e decidiu largar o cigarro em 2010, aos 55 anos. No ano passado, há 15 anos sem fumar, foi surpreendida pelo diagnóstico de um câncer de pulmão. “O primeiro momento é um susto. Depois, (pensei): ‘vamos fazer o que é necessário. Vamos à luta. E assim foi feito”, lembra ela, que descobriu a doença em estágio inicial.
“Parar de fumar sempre vale a pena, em qualquer idade, mas quem fumou por muitos anos precisa continuar sempre atento, fazer exames de rastreamento, mesmo depois de parar de fumar”, reforça Letícia, também professora colaboradora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Maria Angelina descobriu a doença “por acaso”, após procurar um pronto-atendimento por causa de sintomas respiratórios que ela achava que poderiam ser de uma gripe forte. Uma tomografia solicitada pelo médico indicou a lesão suspeita. “Antes, só sentia um pouco de cansaço e esses sintomas de gripe. Não era nada alarmante”, conta ela.
Câncer silencioso: ausência de sintomas dificulta diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce como o de Maria Angelina não é comum, já que os tumores de pulmão costumam apresentar sintomas somente em estágios mais avançados. Quando a doença se manifesta, pode aparecer:
tosse persistente
falta de ar
dor no tórax
cansaço
presença de sangue no escarro
perda de peso sem causa aparente
Muitos pacientes apenas procuram assistência quando surgem sintomas mais intensos, já em fases mais avançadas da doença. No Sistema Único de Saúde (SUS), esse é o caso de 90% dos pacientes com câncer de pulmão, que descobrem a doença já em estágio 3 ou 4, segundo levantamento realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida por meio de sua plataforma Data Câncer 360º. O dado é resultado da análise de 14.145 diagnósticos a partir do cruzamento de bases oficiais do Ministério da Saúde.
Segundo os especialistas, o diagnóstico tardio é uma das razões que fazem o câncer de pulmão ser tão letal. Ele é o tumor que mais mata no Brasil. Somente no ano passado, 32 mil brasileiros perderam a vida vítimas da doença. “Juntando a ausência de diagnóstico no início da doença a um tumor agressivo, temos uma fórmula mortal”, diz Santos. (Com informações do portal Estadão)
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