Domingo, 22 de maio de 2022

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Voltar México quer cobrar bilhões dos Estados Unidos por onda de violência com armas de fogo

O México afirma que meio milhão de armas entram no país vindo dos EUA todos os anos. Uma ação judicial contra os fabricantes americanos de armas poderá conter essa maré de armas?

Pouco antes do nascer do sol em uma manhã quente de sexta-feira em junho de 2020, homens armados esperavam por Omar Garcia Harfuch, o chefe de segurança da cidade, então com 38 anos, no bairro nobre de Lomas de Chapultepec, na Cidade do México.

O que aconteceu em seguida foi capturado pelas câmeras de segurança e de celulares de transeuntes aterrorizados: o rajar de balas enquanto dezenas de pistoleiros fortemente armados, alguns vestidos como trabalhadores de obras civis, bloqueavam seu caminho com um caminhão e abriam fogo.

“Naquele momento eu sabia que tínhamos sido emboscados”, disse Harfuch posteriormente ao jornal espanhol El País. “Depois eu senti o primeiro tiro atravessar o para-brisas.”

Quando o tiroteio terminou, ele havia sido baleado três vezes. Três outras pessoas — dois guarda-costas e uma mulher inocente vendendo lanches — morreram.

A localização e o alvo da emboscada são anomalias notáveis na sangrenta guerra às drogas do México. Mas as armas recuperadas depois do tiroteio não são: rifles de precisão Barrett calibre 50, pistolas e armas militares. Todas são produzidas e vendidas por fabricantes de armas com sede nos EUA.

O ataque contra Harfuch, juntamente com centenas de outros incidentes, agora é parte de uma ação movida pelo governo mexicano contra fabricantes de armas e atacadistas com sede nos EUA, incluindo nomes famosos como Smith & Wesson, Beretta, Colt, Glock e Ruger.

A ação, movida em um tribunal federal em Massachusetts — onde várias das empresas estão sediadas — argumenta que a “invasão” de armas ilegais no México “é o resultado previsível das ações deliberadas e práticas comerciais dos réus”.

As empresas argumentam que o México não tem como comprovar que a violência descrita no processo é culpa delas. As companhias alegam que a lei dos EUA as protege da responsabilidade pelo uso indevido de seus produtos.

Esta semana, serão ouvidos argumentos de ambos os lados para que um juiz decida se o processo vai seguir adiante.

Embora especialistas duvidem de que o processo atinja seus objetivos principais — indenização de US$ 10 bilhões, o fim de práticas de marketing “inflamatórias” que supostamente apelam a criminosos e a criação de tecnologia de segurança “inteligente” — a iniciativa já serviu como um golpe publicitário para o governo mexicano.

Mais de uma dúzia de Estados americanos — incluindo Califórnia e Nova York — expressaram seu apoio ao caso do governo mexicano, assim como advogados representando Antígua e Barbuda e Belize.

O caso está gerando atenção para um problema que o México diz ter sido ignorado há muito tempo pelos fabricantes e pela maioria dos americanos. “Isso não afeta apenas o México”, disse Guillaume Michel, chefe de Assuntos Jurídicos da embaixada do México em Washington, à BBC. “Também tem consequências para os EUA.”

Nos dois lados

Para quem está na linha de frente da guerra às drogas no México, a onipresença de armas fabricadas nos EUA tem sido um problema há muito tempo. A polícia mexicana diz que criminosos e gangues nas cidades fronteiriças dos EUA têm acesso imediato a armas compradas e contrabandeadas através da fronteira.

“As medidas de segurança implementadas na fronteira são quase uma piada”, disse Ed Calderón, ex-policial de Tijuana, do outro lado da Califórnia, e especialista no submundo do crime mexicano.

“A fronteira é porosa”, diz ele. “As pessoas — podem até ser mulheres e homens velhos — caminham ou dirigem pela fronteira diariamente e podem acumular um estoque que rivalizaria com qualquer exposição de armas do Texas. É fácil conseguir uma arma ou rifle no México.”

A Guarda Nacional do México — que é a grande responsável por conter o fluxo de armas para o México — não pôde ser contatada para comentar. Autoridades mexicanas em vários níveis de governo, no entanto, vêm prometendo reprimir o fluxo de armas que atravessam a fronteira, referindo-se ao esforço como uma “prioridade nacional”.

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