Segunda-feira, 23 de maio de 2022

Segunda-feira, 23 de maio de 2022

Voltar Lockdown em Xangai retarda a normalização dos suprimentos e pode agravar a inflação no Brasil

A previsão de que a cadeia logística global estaria de novo regularizada ainda neste ano já foi descartada por especialistas da área. Com o novo surto de covid na China e o lockdown adotado em Xangai – cidade onde está instalado o maior porto do mundo –, a cadeia de suprimentos vive mais um momento de estresse que começa a causar atraso na entrega de mercadorias, deve impactar o Brasil sobretudo nas próximas semanas e pressionar a inflação ainda mais.

Desde o começo da pandemia, quando países adotaram medidas de distanciamento social que inviabilizaram a produção e o deslocamento de produtos, a rede global de logística enfrenta rupturas que causaram desabastecimento de alguns itens. Por outro lado, os estímulos fiscais implantados por diversos governos para amenizar a crise impulsionaram o consumo e a encomenda de mercadorias, aumentando a demanda por frete. Houve, assim, um descasamento entre oferta e demanda.

O preço do frete explodiu nesse período, com a média paga pelo transporte de um contêiner passando de US$ 1,4 mil, em fevereiro de 2020, para US$ 11,1 mil em setembro do ano passado. Hoje, o valor está em US$ 8,9 mil. Esse preço vinha em uma tendência de queda, e grande parte dos especialistas apostava em uma regularização do setor ainda neste ano.

O lockdown em Xangai deve causar um efeito cascata na rede de abastecimento mundial. O porto da cidade movimenta por ano 43 milhões de TEUs (medida equivalente a um contêiner de 20 pés, ou cerca de seis metros), é quase dez vezes o total que circula no porto de Santos – o maior do Brasil.

O distanciamento social, inicialmente, limita a quantidade de trabalhadores no porto, reduzindo a eficiência no local. Em seguida, contêineres começam a se acumular, navios ficam congestionados e as empresas de navegação cancelam embarques, explica o especialista em políticas e indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Matheus de Castro.

A regularização global, porém, levará meses, na avaliação de Castro. “O retorno à normalidade foi retardado. Se as condições permanecerem difíceis também na Ucrânia e nos Estados Unidos, o processo de equilíbrio vai ser jogado para 2023 e 2024.”

Guerra

Além da situação na China, os EUA continuam a registrar congestionamento de navios em suas costas, ainda devido à pandemia, e a guerra na Ucrânia também dificulta o escoamento no Mar Negro. O conflito no Leste Europeu tem ainda sido um entrave para o setor de transporte marítimo ao encarecê-lo devido à alta do preço do combustível. Por outro lado, lembra o especialista da CNI, se o desaquecimento da economia global se concretizar, a demanda por mercadorias deve arrefecer, reduzindo também a necessidade por transporte, o que pode ajudar na regularização da logística.

Até a última semana, apenas na costa chinesa, havia 412 navios aguardando para atracar. Em fevereiro, eram 260 – ou seja, um aumento de 58% –, de acordo com a plataforma Windward.

Outro reflexo desse problema é a falta de contêineres. Dados da Windward mostram que um em cada cinco navios porta-contêineres em todo o mundo está parado do lado de um porto congestionado, sendo que 24,3% deles estão na China. Isso também significa aumento de custos para importadores e exportadores que sofrem com a escassez de contêineres para embarcar seus produtos. Antes dessa crise, diz Carvalho, um contêiner de 40 pés fazia quatro viagens por ano. Hoje esse número é de 2,3 a 2,5 vezes.

De acordo com o diretor executivo do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), Claudio Loureiro de Souza, o congestionamento de navios na China reflete um problema que acontece em terra. O transporte terrestre no país também está travado devido ao lockdown, o que dificulta o deslocamento das mercadorias até os portos.

Brasil

Apesar de o maior impacto dessa nova onda de problemas no transporte marítimo ainda ser esperado para as próximas semanas no Brasil – dado que um navio leva cerca de 35 dias para viajar da China até aqui –, os primeiros sinais já começaram a aparecer. O preço do frete para exportar um contêiner aumentou 6% entre março e abril, quando o valor médio para envio de um contêiner ficou em US$ 2,5 mil. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o incremento chega a 70%.

Na importação, os preços seguem em queda e a média ficou em US$ 5,5 mil em abril. A partir de meados de abril, começaram a ocorrer cancelamentos de embarques, suspensões de escalas e redução na quantidade de navios na rota Xangai-Brasil. A diminuição da capacidade é estimada em 10% e deve pressionar os preços a partir de maio.

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