Domingo, 23 de junho de 2024

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Voltar “Eu acho que o Banco Central errou na dose e segurou demais a economia”, diz dono da construtora MRV

Quando a posse do governo Lula ainda era recente e havia uma briga com o Banco Central para se baixar os juros básicos no País, o multiempresário Rubens Menin (controlador de MRV, Inter, Log e CNN Brasil) foi o primeiro fora do campo político a tomar parte no pleito pelo corte da Selic, ainda em fevereiro de 2023. Dez meses depois, o tema ainda é prioridade, diz, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

“O juro alto afeta todo mundo. As famílias pagam mais caro para comprar geladeira, carro, casa, tudo. A renda familiar é corroída por esse juro real. Essa é a maior preocupação que tenho para 2024”, reafirma.

Na avaliação de Menin, o Banco Central “segurou demais” a economia ao não baixar os juros antes, o que ainda compromete os investimentos por parte das empresas. A própria MRV, maior construtora residencial da América Latina, teve de pisar no freio. “Sei que é difícil falar, mas o Banco Central poderia ter começado a descer (os juros) mais cedo, pois a inflação está controlada”, argumentou.

Menin elogiou a aprovação da reforma tributária e defendeu que haja um esforço do governo a partir de agora para redução da carga tributária, com maior controle dos gastos públicos. A prioridade, entretanto, deve ser a equalização do déficit.

O empresário classificou Fernando Haddad como um bom ministro da Fazenda, mas o considerou um tanto “desorientado” ao peitar o Congresso e retomar a reoneração da folha salarial via Medida Provisória.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

1) Como o sr. avalia a reforma tributária aprovada no Congresso?

A aprovação era necessária. O nosso arcabouço fiscal era muito antigo e precisava ser reformado. A tributação no Brasil é excessivamente complexa. As empresas precisam de uma estrutura enorme para fazer toda a burocracia tributária. Então, a aprovação da reforma era essencial. Só que a carga tributária ainda é elevada por aqui.

2) Depois da reforma, existe a preocupação de que a carga possa aumentar ainda mais?

Em um primeiro momento, temos de zerar o déficit público, não tem outra solução. Sem isso, os juros seguirão altos e vão tirar a competitividade da economia brasileira. Mas também deve ser feito um esforço para diminuir a carga tributária. No contexto do Brasil de hoje, não foi possível discutir a redução da carga durante a preparação da reforma. A discussão girou em torno do arcabouço e da estrutura. Mas vale lembrar que a reforma não acabou, porque tem 70 e poucas implementações a serem feitas ano que vem. Junto com isso é preciso fazer um esforço para diminuir a arrecadação e aumentar a eficiência dos gastos públicos.

3) A reforma tributária era um tema muito esperado pela classe empresarial. Qual o efeito imediato dela para as empresas?

A complexidade do exercício fiscal no Brasil é uma coisa maluca. A Resia, que é a nossa construtora nos Estados Unidos, tem duas pessoas para cuidar da parte tributária. Aqui no Brasil a MRV tem mais de 100 pessoas.

4) Quais os principais temas da agenda nacional para 2024, na sua avaliação?

Aqui a inflação está em cerca de 4,5%, e a Selic, em 11,75%. Então o juro real está em torno de 7%. É muito alto. Lá fora é bem menor, em cerca de 2%. Fico preocupado que, com o juro alto, as empresas parem de investir. Os efeitos vão ser sentidos daqui dois a três anos na economia. Tem planta siderúrgica e de bens de consumo sendo cancelada. Isso tudo vai comprometer a nossa infraestrutura e vai tirar a competitividade do País.

5) Em uma entrevista em fevereiro de 2023, o sr. foi o primeiro grande empresário a defender publicamente que o Banco Central reduzisse os juros. Até então, esse era um pleito defendido apenas pelo presidente Lula e pelos aliados políticos. Passados esses meses, o ciclo de corte começou. Que perspectivas se abriram a partir daí?

Em primeiro lugar, quero dizer que respeito o Banco Central independente. Mas acho que o Banco Central errou na dose e segurou demais a economia. Ele subiu os juros muito rápido. Sei que é difícil falar, mas ele poderia ter começado a descer mais cedo, pois a inflação está controlada. Agora pegue as previsões do Boletim Focus para inflação e juros no fim do ano.

A previsão de inflação é de 3,9%, e de juros, 9%. Tem alguns analistas que falam até em Selic em 8,5%. Ainda assim, os juros reais vão estar em, pelo menos, 5% em 2024, o que ainda é muito alto. Se a inflação é de 3,9%, então a Selic deveria ser na faixa de 6% a 6,5%. O juro alto afeta todo mundo. As famílias pagam mais caro para comprar geladeira, carro, casa, tudo. A renda familiar é corroída por esse juro real. Essa é a maior preocupação que tenho para 2024.

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