Sexta-feira, 21 de junho de 2024

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Voltar Essequibo: o que significa a manobra militar dos Estados Unidos na Guiana

Aviões militares dos Estados Unidos sobrevoaram a região de Essequibo e demais áreas da Guiana em exercícios nesta quinta-feira (7). Este é o primeiro movimento militar dos EUA na região desde o referendo que a Venezuela realizou, no domingo (3), sobre a anexação de Essequibo. O território, maior que a Inglaterra e o estado do Ceará, é atualmente controlado pela Guiana, mas o governo venezuelano o reivindica como parte de seu país.

Em comunicado, os EUA trataram a situação como “de rotina”. A Venezuela disse tratar-se de “provocação”. Mas o que significa esse exercício militar dos EUA num momento em que crescem as tensões entre Venezuela e Guiana?

Dissuasão

“O anúncio de uma operação militar conjunta é um ato de dissuasão”, diz Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense.

Na doutrina militar, dissuasão é uma forma de desencorajar qualquer agressão do outro lado. Significa que, ao se posicionar na Guiana, os Estados Unidos mandam um recado à Venezuela de que o pequeno país não estará sozinho em caso de conflito.

Brusolin disse acreditar que dificilmente o presidente venezuelano Nicolás Maduro embarque em uma guerra contra a Guiana. A força dos dois países é desigual: a Guiana tem 3.400 soldados; a Venezuela, mais de 340 mil.

O baixo contingente de soldados da Guiana é um dos motivos pelos quais os EUA escolheram fazer um exercício militar aéreo, segundo ele. É mais rápido, e não daria para fazer exercícios com o pequeno contingente guianês, que ainda é mal equipado.

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra Ronaldo Carmona também fala que o exercício militar é um ato de dissuasão —mas vê, mais adiante, o gesto como estratégico para os EUA se instalarem na América do Sul.

“No curto prazo, posicionar-se para dissuadir ação militar da Venezuela em Essequibo. Do ponto de vista estratégico, posicionar-se de forma permanente em plena Amazônia. Não tenha dúvida de que os EUA cobrarão a proteção que agora oferecem à Guiana”, diz.

Não é rotina

Diferentemente do que aponta os EUA, não se trata de operação de rotina, diz Carmona.

“Afinal, estamos em meio a uma escalada do conflito e logo depois do anúncio de uma série de medidas pelo governo Maduro anteontem como consequências do plebiscito. Ou seja, não há ‘situação normal’”, afirmou o professor.

As manobras, segundo a Embaixada dos Estados Unidos na Guiana, acontecerão em parceria com a Força Aérea guianesa e fazem parte de operações de rotina da parceria para “melhorar a segurança” local. Os dois países têm parceria militar desde 2022.

No fim de novembro, dias antes da realização do referendo, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, enviou à Guiana comandantes do alto escalão do Comando Militar dos Sul dos EUA para debater estratégias de defesa. Washington também estuda a construção de uma base militar em Essequibo.

Telefonema

Também nesta quinta, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, ligou para o presidente guianês, Irfaan Ali, para expressar apoio dos EUA à Guiana e debater a “cooperação robusta” na área de segurança.

O anúncio das manobras conjuntas também acontece um dia depois de um helicóptero militar guianês desaparecer enquanto sobrevoava Essequibo. Além de um piloto e um co-piloto, cinco oficiais do alto escalão do Exército da Guiana estavam a bordo da aeronave, segundo autoridades do país. Eles fariam uma inspeção das tropas situadas na área de fronteira.

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