Quinta-feira, 02 de abril de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 2 de abril de 2026
“É tudo o que o agronegócio não precisava neste momento”, diz José Roberto Mendonça de Barros, sócio de uma consultoria. Na verdade, é difícil encontrar algum setor da economia que precise de mais uma guerra, como a deflagrada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, há pouco mais de um mês. Mas especialistas no setor, como Mendonça de Barros, dizem que o conflito acontece num momento particularmente desafiador para a área.
Não se trata de uma crise no agronegócio brasileiro, setor que responde por cerca de 25% do PIB. No ano passado, a agropecuária registrou expansão de 11,7% em relação a 2024, segundo o IBGE. Para este ano, é esperada desaceleração nesse ritmo, mas ainda com produção elevada.
“Há segmentos dentro dessa cadeia que estão muito bem, como proteínas, café e açúcar”, diz Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA. “Mas é fato que o setor passa por um grande ajuste e a guerra do Irã é mais uma âncora que segura essa retomada.”
Isso porque alguns elos dessa cadeia, principalmente os ligados aos grãos, viveram sucessivos reveses nos últimos anos. Entre eles, altas nos custos de produção, supersafras que derrubaram lucros e a “estilingada” nos juros, com o consequente recorde de recuperações judiciais para o setor. Uma crise energética, como a causada pela guerra do Irã, com impacto tanto em combustíveis quanto em fertilizantes, agravará o cenário para quem já está com a corda no pescoço.
Responsável por salvar o PIB brasileiro na pandemia, o agronegócio parecia ter entrado, no início da década, numa temporada de fartura infinita. A alta na produção em 2020, em comparação com o ano anterior, foi de nada menos do que 24,3%, segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, com a CNA.
Nos anos seguintes, a mistura de câmbio favorável às exportações, adoção de novas tecnologias, juros baixos e dinheiro abundante no mundo prometia uma expansão − e rentabilidade − ainda mais forte do celeiro do mundo. Até mesmo um novato de peso, que jamais tinha calçado botas, chegou para irrigar o campo: o mercado financeiro. Com o objetivo de tirar a dependência do agro do Plano Safra, repassado principalmente pelo Banco do Brasil, o governo criou a Nova Lei do Agro, em 2020.
Entre outras novidades, o marco legal abriu a possibilidade da criação dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), uma modalidade de investimento isenta de Imposto de Renda. Outros incentivos também permitiram o avanço dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) em escala inédita.
Resultado: o patrimônio líquido dos fiagros foi de R$ 10 bilhões, em 2022, para R$ 38 bilhões, segundo os dados mais recentes de 2026, com 750 mil investidores ativos na B3. Já o estoque de CRAs foi de R$ 65 bilhões, em 2021, para uma estimativa de R$ 180 bilhões no ano passado.
Por outro lado, fundos de private equity (que compram participação em empresas) passaram a investir na consolidação de cadeias varejistas e atacadistas em todo o País. Gestoras fizeram com que o “balcão da esquina” que vendia adubo em qualquer cidade do interior se transformasse em redes gigantescas.
Lojas bonitas, padronizadas e com muitos vendedores no campo. O objetivo era ganhar escala nas negociações com os grandes produtores de insumos e fertilizantes, dar eficiência logística, bem como crédito ao produtor.
Mas veio a primeira e inesperada guerra, com o ataque da Rússia contra a Ucrânia, em 2022. De uma hora para outra, o preço do cloreto de potássio, usado em culturas como soja, milho, cana e café, foi de US$ 250 para US$ 1 mil a tonelada.
“Tanto a pandemia quanto a guerra da Ucrânia revelaram a vulnerabilidade da dependência internacional na área de fertilizantes”, diz Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro.
Porém, pouco depois da guerra tornar os insumos mais caros e antes das cadeias globais de suprimentos se readequarem, o Brasil colheu sua maior safra. Foram mais de 300 milhões de toneladas em 2023, principalmente de milho e soja. A boa notícia virou prejuízo: o produtor, que tinha contas mais salgadas para pagar, recebeu menos por sua colheita − e enfrentou um primeiro ano de restrições.
No ano seguinte, em 2024, apesar de os custos com fertilizantes terem caído entre 25% e 30% em relação ao ano anterior, o preço da produção despencou ainda mais rápido em relação ao ano anterior. Isso porque foi a vez de EUA e Argentina brilharem com safras recordes. Por outro lado, as enchentes no Rio Grande do Sul fizeram com que os agricultores perdessem safras inteiras prontas para colheita, mas continuassem com dívidas com juros altos. (Com informações do jornal O Estado de S. Paulo)
Após enviar seu primeiro comentário, você receberá um email de confirmação. Clique no link para verificar seu email - depois disso, todos os seus próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
Você só precisa verificar uma vez a cada 30 dias.