Terça-feira, 23 de julho de 2024

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Voltar Crime em creche de Santa Catarina aproxima o Brasil de problema crônico dos Estados Unidos: o que explica a escalada de casos?

O ataque que causou a morte de quatro crianças e feriu outras cinco na creche de Blumenau (SC) aproxima o Brasil dos Estados Unidos, em que atentados deste tipo se tornaram recorrentes. Há pouco mais de uma semana, uma professora morreu e outras três ficaram feridas em atentado na Escola Estadual Thomázia Montoro, em São Paulo.

Para especialistas, as semelhanças escancaram uma transformação sensível no país, derivada do aumento do extremismo e da cultura do ódio, somada ao acesso mais facilitado a armas e à detecção de crise sem paralelo de saúde mental, especialmente entre os mais jovens.

Em busca de choque e reconhecimento, eles escolhem como palco de massacres espaços de convivência como as escolas. Entre as medidas destacadas por estudiosos do tema para enfrentar o problema, estão a redução do acesso às redes, maior articulação entre escolas, sistemas de saúde e famílias, e atenção redobrada dos responsáveis ao uso de celulares.

“O Brasil vive a mesma perspectiva de aumento do extremismo detectado nos EUA. Isso se demonstra no culto às armas e na violência como forma de resolver conflitos. Normaliza-se a violência, o que leva os que estão em desenvolvimento ou já têm patologias de base a considerar esse tipo de conduta permitido”, afirma Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia da Educação da Universidade Estadual Paulista, líder de grupo de estudos sobre violência e convivência nas escolas.

Com a expansão da cultura do ódio e do acesso a conteúdos extremistas, afirma a pesquisadora, agressores buscam espaços onde teoricamente encontrariam maior divulgação e menos resistência.

“Quando acontece algo assim, chama a atenção. Isso também explica, em parte, por que os ataques têm aumentado em intensidade e frequência”, aponta.

Levantamento de um grupo de doze pesquisadores organizado por Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da USP, registra ao menos 35 vítimas e 72 feridos em ataques em escolas entre 2000 e 2022, normalmente associados a bullying e a “situações prolongadas de exposição a processos violentos”.

Outro trabalho de fôlego, o monitoramento da saúde mental de quase 6 mil jovens de todo o país pela Faculdade de Medicina da USP, por dois anos, de 2020 a junho do ano passado, identificou, além de 36% de pessoas com sintomas de depressão e ansiedade, a ligação entre redes sociais e o aumento de casos de violência dentro e fora das salas de aula.

O psiquiatra Guilherme Polanczyk, que coordenou o estudo, também lembra que há vínculo bem estabelecido na literatura médica entre quem sofre violência quando criança perpetuá-la quando adulto. Em Blumenau, o assassino confesso tinha 25 anos. Na escola de São Paulo, a Polícia Civil investiga se houve ajuda ao adolescente de 13 anos na preparação dos ataques.

Os investigadores já sabem que outras pessoas interagiram com as publicações sobre o tema nas redes sociais feitas pelo adolescente, entre elas um colega de sala, também tratado como suspeito pela polícia.

Uma conta usada pelo adolescente no Twitter faz referência a um dos atiradores que mataram sete pessoas em uma escola de Suzano, na Grande São Paulo, em 2019. Algumas de suas publicações na rede social mencionavam uma hashtag com a qual internautas exaltam criminosos.

Essa e outras hashtags, alertam especialistas, impulsionam o discurso de ódio entre jovens nas redes sociais e em fóruns de jogos, como explica a pesquisadora Letícia Oliveira, que há 11 anos monitora células neonazistas na internet:

“Há uma comunidade que cultua atiradores em massa. Isso está forte no Brasil, e piorando. Quando acontece um atentado desses, eles furam a bolha e o conteúdo viraliza, oferecendo um caminho para a radicalização.”

Polanczyk, por sua vez, conta que tem tratado em seu consultório pacientes jovens expostos à radicalização via redes sociais, incentivados a cometer atos de violência no mudo real.

“Já tratei de pacientes jovens expostos à radicalização digital, em fóruns de redes sociais, em que pessoas manipulam a cabeça de outras mais frágeis, muitas vezes com objetivo de se cometer atos de violência no mundo real”, afirma.

O jornalista americano Max Fisher, autor de “A máquina do caos”, lançada no Brasil no mês passado, disseca no livro como as fragilidades psicológicas dos usuários foram usadas para aumentar engajamento (e, claro, lucros para as big techs) na lógica do algoritmo, que expõe sem travas, escreve, conteúdos que incentivam ódio e violência, nos EUA e no Brasil.

“O discurso do ódio segue sendo promovido nas redes. Há quem as compare à indústria do cigarro: o produto oferecido pelas big techs é prejudicial à saúde, neste caso a mental, e a saída seria reduzir o acesso a elas. E obrigá-las a divulgar o quão viciante e perigoso ele é”, afirmou.

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