Segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026

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Voltar Capão da Canoa celebra o Dia de Iemanjá com fé, tradição e cerca de 5 mil pessoas na beira-mar

O litoral norte gaúcho viveu, na virada da noite de 1º para 2 de fevereiro, uma das celebrações mais intensas de sua tradição religiosa: o Dia de Iemanjá, a Rainha do Mar. Em Capão da Canoa, cerca de 5 mil pessoas se reuniram na orla para prestar homenagens, fazer oferendas e renovar promessas diante da entidade que simboliza a força das águas e a proteção espiritual.

A cidade possui um diferencial que reforça sua identidade religiosa: um altar fixo dedicado a Iemanjá na Avenida Beira-Mar, inaugurado em 1994, que se tornou referência permanente de fé. Ali, durante todo o ano, devotos deixam flores, perfumes, espelhos e frutas, elementos ligados ao encanto e à delicadeza da mãe das águas. No dia da festa, o altar se transforma em ponto de encontro e devoção, ampliando o caráter turístico e cultural do evento.

Tendas e grupos de fé

Na noite da celebração, a praia se encheu de tendas organizadas por diferentes grupos religiosos. Cada uma distribuía velas, passes, cânticos e danças, criando uma atmosfera de espiritualidade que se espalhava pela areia. Entre elas, destacava-se a tenda do Pai Cezinha Ogum Beira-Mar, cujo nome completo é Paulo César Monteiro Fernandes, diretor espiritual e cacique de Umbanda. Natural de Capão da Canoa, ele coordena há 35 anos os trabalhos religiosos na cidade.

“Viemos saudar a senhora mãe, senhora das águas, a mãe Iemanjá, e fazer nossos pedidos. Pedimos principalmente paz na terra do homem, misericórdia diante da forma como estamos destruindo a natureza. Nada mais justo que no dia dela pedirmos perdão e discernimento para viver em harmonia”, explicou Pai Cezinha, emocionado diante do público.

Fé e tradição

Segundo o dirigente, a corrente espiritual reuniu cerca de 200 médiuns, enquanto a assistência somou aproximadamente 5 mil pessoas, formando um grande público que se estendeu pela orla. “Participam desde crianças até idosos. Eu mesmo fui batizado aos sete anos de idade por uma tia, por um problema de saúde. Hoje dou continuidade como quarta geração de uma família religiosa”, contou.

A celebração começou por volta das 22h do dia 1º, com cânticos e distribuição de axé. A madrugada foi marcada por rezas, tambores e oferendas, e a preparação seguiu até o amanhecer. Às 6h, com a chegada dos salva-vidas, um barco repleto de pedidos e oferendas é levado ao alto-mar, simbolizando a entrega à Rainha do Mar. Nesse momento, o silêncio dá lugar às palmas e aos gritos de “salve Iemanjá”, em uma explosão coletiva de fé e emoção.

Oferendas e simbolismo

As oferendas mais comuns incluem flores, frutas, velas, perfumes, espelhos e pentes — elementos ligados à beleza e ao simbolismo feminino de Iemanjá. “Ela gosta muito de tudo que é relacionado à beleza. Por isso oferecemos perfumes, espelhos, flores. É uma forma de agradecer e pedir proteção”, explicou Pai Cezinha.

Turismo religioso e resistência cultural

O evento atrai devotos de diversas cidades do Rio Grande do Sul e até de outros estados, transformando-se em um verdadeiro turismo religioso. “Muitos vêm pagar promessas, outros vêm por tradição. Isso atrai milhares de fiéis e fortalece a cidade como referência de fé”, disse o dirigente.

Pai Cezinha também destacou a importância da visibilidade da Umbanda e do Candomblé, religiões que por muito tempo sofreram discriminação. “Antigamente a gente sofria muito preconceito. Hoje, graças aos meios de comunicação, as pessoas começam a entender nosso trabalho e aceitar nossa religião como qualquer outra. O secretismo já se torna mais visível, e isso é uma vitória para todos nós”, afirmou.

Uma noite inesquecível

A noite de Capão da Canoa foi marcada por cânticos, tambores e pela emoção dos fiéis. Muitos se ajoelharam na areia, outros acenderam velas protegidas em pequenos buracos contra o vento. Crianças, jovens e idosos se uniram em uma corrente de fé que atravessou a madrugada e seguiu até o dia 2.

O altar fixo na Beira-Mar, iluminado e repleto de símbolos de devoção, reforçou o caráter permanente da fé. Mais do que uma celebração, o Dia de Iemanjá em Capão da Canoa mostrou-se como um encontro de gerações, tradições e culturas, reafirmando a cidade como um dos polos mais importantes da fé dedicada à Rainha do Mar no Rio Grande do Sul.(por Gisele Flores – Gisele@pampa.com.br)

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