Segunda-feira, 16 de março de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 16 de março de 2026
A capacidade de armazenagem de grãos deverá atingir este ano o maior déficit já registrado na série histórica. Para 2026, ficará 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada, de 353,4 milhões de toneladas, segundo estimativas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Em tempos de crise financeira no agronegócio, que pode ser agravada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, mais armazéns ajudariam a comercializar e escoar melhor mais uma supersafra, segundo analistas e produtores.
Pelas estimativas da Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária (CNA), com base em dados da Conab, os armazéns de grãos terão capacidade para guardar 61,7% da produção total que se espera colher na safra atual, o menor nível em 20 anos. Nos EUA, o potencial de estocagem é de cerca de 130%, ou seja, há um superávit de 30%, segundo a CNA. Em 2006, quando o déficit no Brasil foi de apenas 500 mil toneladas, a capacidade equivalia a 99,6% da produção.
De lá para cá, a produção nacional triplicou, com investimentos no avanço das fronteiras agrícolas e na tecnologia de maquinário e de sementes. A infraestrutura, incluindo os armazéns, ficou para trás. O investimento aquém do necessário deve-se aos juros historicamente elevados, à falta de profissionalização de gestão e a incentivos que levam os produtores a pensar no curto prazo, segundo especialistas, executivos e produtores.
Sem ter onde guardar os grãos, produtores são levados a escoar a produção logo. Se tivessem mais capacidade, poderiam entregar os grãos aos poucos, aliviando a pressão de demanda sobre terminais portuários, vagões de trem e, principalmente, caminhões, que funcionam como armazéns sobre rodas.
“O produtor acaba ficando refém de todo mundo. Todo mundo quer abocanhar um pouco do lucro do produtor, desde o frete até as tradings”, diz João Luiz Ferri, que produz soja, milho e trigo em 500 hectares na Fazenda Paraíso, em Luiziana (PR), a 430 quilômetros de Curitiba.
As tradings são as grandes comercializadoras, que compram os grãos e exportam para o mundo todo. Sem armazenar, os produtores têm menos poder de barganha com elas, em um jogo dominado por gigantes multinacionais, como as americanas Cargill e Bunge, a suíça Louis Dreyfus e a chinesa Cofco.
“A falta de armazenagem obriga o produtor a fazer uma venda mais rápida. Ele tem que entregar direto para a trading rapidamente, ficando refém daquele preço e pagando custos maiores”, explica Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja-MT, associação de produtores de Mato Grosso.
Mais armazéns ajudariam a aliviar o cenário atual de crise financeira no campo. A combinação de juros elevados e encarecimento de insumos — que podem piorar com a guerra no Irã — com cotações de soja e milho em baixa tem apertado margens desde a safra passada.
Numa pesquisa de percepção com produtores, feita pela CNA em 2023, 63% dos entrevistados citaram o alto custo de construção como principal impedimento ao investimento em armazéns, enquanto 35% reclamaram de linhas de crédito pouco atraentes. Um armazém de grãos pode exigir investimento de R$ 10 milhões a R$ 25 milhões, segundo fontes. Além de caro, é um investimento cujos benefícios, na economia com fretes e comercialização mais planejada, demoram a aparecer. Por isso, requer financiamento, mas, com juros altos, a conta não fecha. (Com informações do jornal O Globo)
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