Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Voltar Até as apostas esportivas agora tiram dinheiro do comércio

Dados de emprego e renda no País deveriam trazer boas notícias ao varejo, mas não é isso que tem ocorrido. Conforme a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), uma nova dinâmica nas vendas tem competido diretamente com o comércio varejista.

Em outubro último, havia mais de 100 milhões de brasileiros ocupados, fato inédito em 11 anos, desde o início da série do IBGE em 2012. No trimestre encerrado em outubro, a taxa de desemprego estava em 7,6%, ante 8,3% em igual período de 2022, aponta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Também em outubro, o rendimento médio real de R$ 2.999 mensais tinha avançado 3,9% na comparação com mesmo período do ano anterior. Só o juro básico destoa dos outros indicadores macroeconômicos. Isto é, joga contra o consumo. Atualmente em 12,25% ao ano, a trajetória da taxa Selic é de queda, mas ela ainda está num nível elevado. Em novembro de 2022, os juros básicos eram de 13,75% ao ano.

No entanto, há fatores novos interferindo nas vendas, observa o presidente da SBVC, Eduardo Terra. “O ambiente competitivo está diferente no varejo e isso tem trazido desafios adicionais.” No momento, grandes varejistas tradicionais e a SBVC tentam entender esse movimento. E concluíram que existe uma “competição oculta” pelo bolso do consumidor.

A hipótese é de que quatro segmentos estariam competindo para abocanhar uma fatia da renda disponível, que, no passado, era destinada às compras de mercadorias no comércio tradicional. Seriam as apostas online, a venda direta da indústria para o consumidor, os sites internacionais de comércio eletrônico (cross-border) e os marketplaces. Este último reúne pequenos empreendedores que, normalmente, estão fora do varejo das grandes redes. Os sites internacionais, por sua vez, tiveram queda de braço recente com o varejo tradicional por conta da tributação.

Juntos, os quatro segmentos movimentam cifras significativas. Nas contas do presidente da SBVC, seriam equivalentes a 15% do que o varejo fatura. Em valores monetários, essa fatia seria de R$ 345 bilhões por ano. “É a primeira vez que esses novos elementos ficaram mais evidentes.”

Endividamento

O economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas e responsável pela sondagem do comércio, Rodolpho Tobler, diz acreditar que o principal motivo para o fraco desempenho do varejo na Black Friday e a perspectiva de um Natal morno é a cautela dos consumidores em razão de o endividamento continuar elevado.

“Em relação ao passado, o ambiente macroeconômico está melhor, só que as famílias ficaram inadimplentes por muito tempo e os consumidores estão ainda cautelosos, tentando acertar o orçamento.”

Desde julho, está em operação o Desenrola, programa do governo de renegociação de dívidas. Na primeira fase, 9,7 milhões de brasileiros deixaram de ser inadimplentes por meio desse programa. Mas Tobler não vê um impacto tão rápido da renegociação de dívidas no consumo deste fim de ano. “A pessoa precisaria de um novo crédito para voltar a comprar.”

De acordo com o dado mais recente do Banco Central de comprometimento de renda, as famílias tinham em agosto 30,4% da renda empenhada com pagamento de dívidas, excluindo a prestação da casa própria. Essa marca já foi maior, chegou a 31,7% em julho do ano passado e a 31% em janeiro deste ano.

“A situação (do endividamento) não é confortável”, afirma o economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes. Ele projeta que o indicador de comprometimento da renda das famílias com dívidas feche o ano 30,1%. Para ele, o mercado de crédito, afetado pelos juros ainda elevados, e o alto endividamento da população são fatores que devem limitar o avanço das vendas de final de ano.

Voltar

Compartilhe esta notícia:

Deixe seu comentário

No Ar: Show Da Madrugada