Quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Por Redação Rádio Caiçara | 18 de outubro de 2026
Quatro em cada dez brasileiros (39%) usaram medicamentos sem eficácia comprovada para tratar a Covid-19, segundo estudo publicado em julho na Revista de Saúde Pública, da USP (Universidade de São Paulo).
Ao todo, 63% dos participantes disseram ter usado algum medicamento para tratar a doença. Entre eles, os mais utilizados foram antitérmicos (53,7%) e antibióticos (36,2%). No caso dos medicamentos sem eficácia comprovada, a azitromicina foi a mais usada (27,2%), seguida pela ivermectina (23,6%) e pela cloroquina (12,1%).
A pesquisa, feita por pesquisadores da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e da University of Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, em 2024, ouviu 9.591 pessoas que relataram ao menos uma infecção por Covid. O estudo conduziu entrevistas em 133 municípios dos 26 estados e no Distrito Federal.
A azitromicina é um antibiótico usado para tratar infecções causadas por bactérias; a ivermectina é um antiparasitário indicado contra vermes e outros parasitas, e a cloroquina é um medicamento utilizado principalmente para a prevenção e o tratamento da malária, além de doenças autoimunes como artrite reumatoide e lúpus.
Entre os participantes que usaram cloroquina, a proporção foi maior entre aqueles que disseram desconfiar de cientistas: 20,6%, contra 10,1% entre os que afirmaram confiar nos cientistas. A combinação de cloroquina e ivermectina também foi mais frequente entre os que desconfiavam da ciência (34% contra 26,2%).
Considerando o uso de qualquer medicamento, a proporção foi maior no Norte (74,1%), Nordeste (67,6%) e Centro-Oeste (65,2%) do que no Sudeste (59,2%) e Sul (58,7%). O uso de cloroquina e ivermectina também se concentrou principalmente no Norte e no Centro-Oeste.
As mulheres também relataram maior uso de qualquer medicamento do que os homens (67,4% contra 58%). Já a cloroquina foi ligeiramente mais utilizada por homens (13,5% contra 10,7%).
O uso de todos os medicamentos foi maior entre quem procurou algum serviço médico durante a doença. A frequência de uso de qualquer remédio chegou a 70,5% nesse grupo, contra 46,1% entre os que não buscaram atendimento.
Para os autores, isso sugere que parte relevante do consumo pode ter vindo de prescrições ou orientações médicas inadequadas, embora o estudo não permita distinguir o que foi indicado por profissionais do que foi usado por conta própria.
O uso de qualquer medicamento também foi maior entre as pessoas de menor renda. A frequência chegou a 70,1% entre quem recebia menos de um salário-mínimo e caía conforme a renda subia, até 55,1% na faixa de cinco salários-mínimos ou mais.
Segundo os pesquisadores, esse padrão pode refletir o menor acesso a cuidado médico oportuno em grupos socioeconomicamente mais vulneráveis, o que favoreceria a busca por medicamentos por conta própria.
Os autores associam o uso disseminado dos medicamentos sem eficácia comprovada à ampla promoção de supostas curas durante a pandemia.
Segundo o estudo, o uso desses fármacos foi estimulado pela Presidência da República, então representada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), e pelo Ministério da Saúde, que teve quatro ministros durante a crise, e respaldado por entidades médicas, líderes evangélicos e influenciadores digitais.
Os pesquisadores afirmam que a literatura acadêmica mostra que essa promoção não foi acidental, mas parte de uma estratégia política de gestão da pandemia. Ao oferecer uma suposta cura, os grupos que a defendiam buscavam evitar medidas de isolamento social e transferir ao paciente a responsabilidade pelo próprio cuidado, o que criou uma falsa sensação de segurança na população. (Com informações da Folha de São Paulo)
Após enviar seu primeiro comentário, você receberá um email de confirmação. Clique no link para verificar seu email - depois disso, todos os seus próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!
Você só precisa verificar uma vez a cada 30 dias.